Publicidade

Artigos de saúde

Trabalho humanitário: Um risco para a vida

Neste artigo:

Introdução
O Estudo
Resultados
Comentários e Conclusões

"A natureza do socorro humanitário vem mudando dramaticamente na última década, devido ao fim das guerras entre países, para os conflitos internos, que ocorrem principalmente em países enfraquecidos e decadentes. No entanto, os civis e os trabalhadores que tentam proteger e dar assistência às populações parecem estar se tornando alvo de extorsões, estupros, raptos e vários outros tipos de violência. Os trabalhadores de serviços humanitários tentam proteger as pessoas, mas a proteção deles próprios é um dilema presente em todas as organizações internacionais de ajuda. Muitas dessas organizações acreditam que o número de mortes nesse grupo está aumentando, mas ainda não existem dados que avaliem corretamente essas mortes".

Introdução

Para melhor compreender a ocorrência de morte entre esses trabalhadores, um grupo de pesquisadores norte-americanos e suíços (do Center for Refugee and Disaster Studies, Johns Hopkins School of Hygiene and Public health, Baltimore e do Department of Emergency and Humanitarian Action, Organização Mundial de Saúde, Genebra), liderados pelo Dr. Mani Sheik, conduziram um estudo, que foi publicado na revista British Medical Journal de julho de 2000, no qual eles analisaram 382 casos de morte entre trabalhadores das organizações humanitárias, entre os anos de 1985 e 1998.

O Estudo

Os pesquisadores coletaram informações de documentos das agências e organizações internacionais de ajuda. Eles incluíram todas as mortes que ocorreram entre os trabalhadores humanitários, entre os anos de 1985 e 1998, durante os períodos de transição e de emergência dos conflitos. As organizações foram classificadas em não-governamentais (ONG’s) e governamentais (a Cruz Vermelha, os programas de assistência das Nações Unidas, e as Missões de Paz).

Algumas organizações não tinham documentos a respeito das mortes e das circunstâncias das mesmas. No total, 32 organizações participaram do estudo, sendo que apenas três se recusaram. Foram identificadas 392 mortes, mas 10 não preencheram os critérios de inclusão.

As mortes foram categorizadas de acordo com a causa, com a demografia, com os fatores ocupacionais e com as circunstâncias em que ocorreram. Em relação à causa das mortes, essas foram divididas entre causas violentas intencionais (com armas, bombas, artilharia, minas e outros tipos de armas) e causas violentas não-intencionais (como afogamentos e desastres aéreos). As demais causas foram acidentes automobilísticos e "outras causas", como morte natural e doenças.

Resultados

Das 375 mortes, 58 ocorreram entre voluntários de organizações não-governamentais, 52 entre trabalhadores da cruz vermelha, 177 entre os funcionários dos programas das Nações Unidas e 88 soldados das Missões de Paz.

Quase 70% das mortes tiveram causas violentas e intencionais, 7% tiveram causas violentas não-intencionais; os acidentes automobilísticos foram responsáveis por 17% dos casos e as "outras causas" foram responsáveis por 8% dos casos. A maiorias das causas violentas e intencionais aconteceu entre os anos de 1992 e 1995, época em que ocorreram 75% dos casos.

Cerca de 60% dos trabalhadores mortos eram de nacionalidade local e 40% eram estrangeiros. Dos trabalhadores mortos, 20 eram norte-americanos, 57 eram europeus, 168 eram africanos e 5 eram australianos.

A média de idade foi de 38,2 anos entre os trabalhadores locais e de 39,9 entre os estrangeiros.

Apenas 227 trabalhadores foram classificados de acordo com o tipo de ocupação, sendo que 29 eram motoristas, 28 eram guardas, 48 eram funcionários de escritórios, 49 eram assistentes de ação, 21 eram trabalhadores da área médica, 43 eram oficias de paz e 9 eram consultores. A violência intencional foi responsável por quase 80% das mortes dos guardas, por cerca de 60% das mortes dos assistentes de saúde e por 56% das mortes dos trabalhadores de campo. Os principais grupos envolvidos nas mortes por acidentes automobilísticos foram os motoristas (44%), os soldados das missões de paz (42%) e os funcionários de escritório (29%).

O maior número de mortes ocorreu no ano de 1994, nos conflitos em Ruanda. Desde 1994, o número de mortes de trabalhadores entre as organizações das Nações Unidas vem diminuindo, porém esse número vem aumentando entre os voluntários das organizações não-governamentais.

Mais da metade das mortes ocorreram na região dos Grandes Lagos (Europa) e na África. O maior número das mortes ocorreu em Ruanda, Somália, Camboja, Angola, Afeganistão, Etiópia e Sudão.

Cerca de 17% dos trabalhadores morreram no primeiro mês de serviço e 31% nos três primeiros meses. A média de tempo de serviço foi de oito meses. Um tempo maior foi observado entre os trabalhadores dos programas de assistência das Nações Unidas e um menor tempo foi visto entre os soldados das missões de paz.

Comentários e Conclusões

Os autores acreditam que o estudo confirmou a hipótese de que o número de mortes está aumentando entre os trabalhadores das organizações humanitárias. Contudo, muitas mortes não foram computadas, principalmente, devido a documentos incompletos ou devido à perda de alguns deles; os autores, entretanto, acreditam que seus resultados foram significativos.

Apesar dos dados incompletos, algumas certezas foram levantadas, e mostraram que os conflitos estão se tornando cada vez mais comuns e mais violentos.

Os pesquisadores notaram que não apenas jovens, mas também veteranos morreram. Ficou claro que um grande número de mortes ocorreu no início de carreira e que os assaltos foram motivos comuns. O estudo mostrou também que trabalhadores nacionais e estrangeiros tiveram os mesmos riscos, sendo que os dados referentes ao último grupo podem não ter sido todos documentados.

Os pesquisadores acreditam que medidas para diminuir o número de mortes entre esses grupos humanitários precisam ser tomadas. Essas incluem um acurado entendimento dos riscos, o estabelecimento de melhores normas, o uso de equipamentos de proteção, um melhor treinamento para dirigir automóveis e uma melhor habilidade em controlar o stress. Outras atitudes que poderiam ser tomadas seriam a criação de melhores planos de evacuação das áreas de conflitos, bem como a tomada de decisões para limitar a ajuda durante as situações de alto risco. Mas muitas dificuldades serão enfrentadas, e essas medidas dependem da boa vontade política internacional e local.

Fonte: BMJ 2000;321:166-168 (15 julho).

Copyright © 2003 Bibliomed, Inc.



Publicidade

Dicionário Médico

Digite o termo desejado

buscar

Ou clique na primeira letra do termo: