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Tempo de tela e desenvolvimento da linguagem: o que os pais precisam saber

© Equipe Editorial Bibliomed

O uso de telas faz parte da vida moderna. Celulares, tablets, televisores e computadores estão presentes na maioria das casas e, muitas vezes, ajudam a entreter crianças pequenas enquanto os pais trabalham, cozinham, descansam ou resolvem tarefas do dia a dia. No entanto, a primeira infância, especialmente os três primeiros anos de vida, é uma fase decisiva para o desenvolvimento da fala, da linguagem e da comunicação. Por isso, é importante entender como o tempo de tela pode interferir nesse processo.

Nos primeiros anos, o cérebro da criança está em rápido desenvolvimento. É nessa fase que ela aprende a reconhecer sons, compreender palavras, imitar gestos, formar frases, expressar desejos e participar de interações sociais. Esse aprendizado não acontece apenas ouvindo palavras de modo passivo. Ele depende, principalmente, da interação com adultos e outras crianças. Quando um cuidador conversa, canta, lê histórias, nomeia objetos, responde aos sons da criança e faz perguntas, estimula conexões cerebrais fundamentais para a linguagem.

O excesso de telas pode reduzir essas oportunidades. Uma criança concentrada em um celular, tablet ou televisão tende a falar menos, ouvir menos palavras dirigidas a ela e participar menos de conversas. Os pais também costumam falar menos quando a criança está entretida por uma tela. Assim, mesmo conteúdos aparentemente educativos podem substituir momentos mais ricos, como brincar, conversar, olhar livros, explorar objetos e interagir com pessoas.

Estudos mostram que o tempo de tela diminui a quantidade de palavras que a criança escuta dos adultos, reduz as vocalizações da própria criança e limita as conversas de ida e volta. Essas trocas, em que o adulto fala, a criança responde e o adulto continua a interação, são essenciais. A linguagem se desenvolve melhor quando há diálogo, contato visual, gestos, expressões faciais, repetição e resposta imediata ao que a criança tenta comunicar.

A televisão ligada ao fundo também merece atenção. Mesmo quando a criança não está assistindo diretamente, o som da TV pode competir com a fala dos adultos, distrair a criança e reduzir a qualidade das interações familiares. Em vez de ouvir claramente a voz dos pais, ela recebe sons misturados, músicas, ruídos e falas que não são direcionadas a ela.

As recomendações atuais são cautelosas. Para crianças menores de 18 meses, orienta-se evitar telas, exceto videochamadas com familiares, sempre com participação dos pais. Para crianças de 2 a 5 anos, recomenda-se limitar o tempo de tela a cerca de uma hora por dia, priorizando conteúdos de boa qualidade e com supervisão. O objetivo não é demonizar a tecnologia, mas evitar que ela ocupe o lugar das experiências essenciais ao desenvolvimento infantil.

Quando a criança usa telas, a melhor estratégia é assistir junto. Essa prática, chamada covisualização, permite que o adulto comente o que aparece, faça perguntas, repita palavras e relacione o conteúdo com a vida real. Se aparece um cachorro na tela, por exemplo, os pais podem dizer: “olha o cachorro!”, perguntar “que som ele faz?” ou lembrar “igual ao cachorro da vovó”. Assim, uma atividade passiva se transforma em oportunidade de conversa.

A escolha do conteúdo também é importante. Programas, aplicativos e jogos adequados à idade podem ser mais úteis quando nomeiam objetos, cores, emoções, animais e ações, ou quando incentivam a criança a responder. Conteúdos com ritmo calmo são preferíveis a vídeos com cenas rápidas, sons altos, excesso de estímulos e imagens aceleradas, que podem sobrecarregar crianças pequenas.

Mesmo conteúdos educativos devem ser limitados. Nenhum aplicativo substitui uma conversa com os pais, uma brincadeira no chão, uma história contada em voz alta ou uma atividade ao ar livre. O excesso de telas pode reduzir o tempo dedicado ao sono, à coordenação motora, à criatividade, à atenção, à socialização e à regulação emocional.

Criar regras familiares ajuda. É recomendável definir locais livres de telas, como a mesa das refeições e o quarto da criança, além de evitar dispositivos antes de dormir. Também é importante que os pais observem o próprio uso do celular, pois a atenção do adulto é parte essencial da comunicação infantil.

Em resumo, crianças pequenas precisam principalmente de pessoas, não de telas. Elas aprendem a falar ouvindo vozes reais, recebendo respostas, observando expressões, brincando e participando da vida familiar. A tecnologia pode fazer parte da infância, mas não deve ocupar o lugar da interação humana.

Fonte: Brushe ME, Haag DG, Melhuish EC, Reilly S, Gregory T. Screen time and parent-child talk when children are aged 12 to 36 months. JAMA Pediatr. 2024;178(4):369-375. doi:10.1001/jamapediatrics.2023.6790.

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