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Artigos de saúde

Feminismo Sem Queimar Sutiã

Desvendando os segredos da mulher como objeto de estudo

Conhecimento. Esta é a forma de promover mudanças sociais. Afinal, o comportamento é ditado pela cultura, e esta somente está disponível aos seus cidadãos nas sociedades que democratizam o acesso à informação. Para as professoras francesas Françoise Thébaud e Régine Dhoquois, essa é a idéia predominante nos estudos feministas atuais.

As duas pesquisadoras desenvolveram estudos que promovem a análise histórica do movimento nos últimos séculos, suas conquistas e sua posição social, na França e no mundo. Juntas, trouxeram seu saber como substrato para reflexão da situação da mulher no Brasil em tempos de globalização da economia, e, certamente, dos costumes.

Régine Dhoquois, professora de direito e Sociologia da Universidade de Paris-7/Denis Diderot, reconhece que, "desde o final do século XVIII até o final desse nosso século XX, o tratamento dado à mulher melhorou substancialmente, em todo o mundo".

Entretanto, Dhoquois chama a atenção em sua palestra "Direito do trabalho e o corpo das mulheres: proteção da produtora ou da reprodutora - séc. XIX e XX" para o fato de as gerações mais jovens estarem acomodadas e achando desnecessário a continuidade da luta.

Já a professora de História Contemporânea da Universidade de Avignon, Françoise Thébaud, apresentou: 'A política natalista na França no século XX - um constrangimento pelo corpo?', onde ressaltou, dentre outros aspectos, a importância do movimento feminista na França para que a mulher chegasse ao lugar que hoje ocupa nas sociedades ocidentais.

"Nas décadas de 60 e 70, as mulheres francesas saíram às ruas e reivindicaram o direito ao uso de métodos anticoncepcionais e abortivos. Foi após este período que as feministas conseguiram a prorrogação da lei contra o controle de natalidade", lembra, referindo ao fato de hoje haver uma grande difusão da contracepção, sendo inclusive o aborto permitido na França desde 1975.

Preconceito

A socióloga Régine Dhoquois completa. "Os anos 60, 70, e até o início dos anos 80, foram realmente um período muito combativo e reivindicatório do movimento feminista na França", afirma.

"As manifestações radicais, que queimavam sutiã nas praças públicas, muitas vezes surtiram efeito contrário e não agregaram o apoio da população em geral, muito menos dos homens", diz. Como exemplo prático de que ainda há muita coisa a ser transformada, a professora cita que, muitas vezes, casais jovens dividem as tarefas domésticas, conscientes desta necessidade. Após o nascimento dos filhos a mulher passa a arcar com todas as tarefas sozinha.

Ou seja, o papel do homem/pai 'moderno', diversas vezes volta a ser tão restrito e machista como há décadas.

Apesar de ainda persistir um posicionamento machista na sociedade, Régine lembra que foram muitas as mudanças na legislação em favor da mulher, especialmente daquela que trabalha. "A lei", analisa a professora, "não muda a mentalidade e o preconceito por si só, mas já garante assistência médica adequada às trabalhadoras. Pelo menos na França", ressalva.

"O Brasil é terreno muito fértil para os estudos de gênero. A população tem mais de 50% de mulheres, a religião predominante é a católica e a desigualdade social é grande, o que traz uma série de complicadores para as discussões em torno da sexualidade feminina, dos métodos contraceptivos e também da legalização do aborto", defende a professora da Universidade de Paris-7 que completa: "é fundamental abrir a mente dos médicos brasileiros para garantir o aumento da qualidade de vida da mulher no futuro".

Mas Dhoquois apresenta outra tristeza. "O feminismo hoje está muito restrito ao meio acadêmico. Isso reforça a importância de debates sobre as questões que permeiam a realidade feminina, lembrando que o "corpo das mulheres" inclui uma "alma que pensa, sente e tem vontade de lutar". Ela aponta como um belo exemplo sua colega da Universidade de Paris-7, Gabrielle Houbre, membro da comissão científica do Encontro que promoveu o debate no Brasil, O corpo das Mulheres.

De acordo com Dhoquois, a Dra. Gabrielle faz parte da geração jovem e já está engajada no novo movimento de reflexão em torno das questões femininas para o próximo século.

O Brasil e as Mulheres

Concentrando-se mais na evolução das políticas de controle da natalidade, a historiadora Françoise Thébaud observa que há no Brasil uma grande proteção à maternidade. Para ela, é 'impressionante' a luta das brasileiras contra as chamadas 'técnicas médicas', os recursos utilizados no que se refere à gravidez e à concepção.

"Existem médicos que realizam a laqueadura sem o conhecimento das pacientes, principalmente as de menor poder aquisitivo, e isso pode gerar uma relação de desconfiança entre a paciente e este profissional", avalia.

"As mulheres do Brasil ainda reivindicam duas posições: o direito de controlar a natalidade e o de ter gravidez e parto seguros e protegidos. A técnica médica aqui é vista como agressiva, ao contrário do que acontece na França. Talvez porque lá a luta contra o poder médico sobre os nascimentos tenha ocorrido na década de 70, com o advento da contracepção e com a permissão do aborto", aponta a professora.

Numa retrospectiva da evolução da política de natalidade francesa, Thébaud lembra que até a Primeira Grande Guerra Mundial o país realizou o controle e restringiu o número de filhos dos casais franceses. Como o conflito reduziu bastante a população, no pós-guerra passou-se a incentivar a constituição de famílias maiores no país.

"Não existem mais os políticos pró-natalistas porque hoje em dia há a consciência de que isso significa um controle sobre o corpo das mulheres". Entretanto, mesmo após o longo período em que o número de habitantes ficou estável, essa política familiar ainda existe. As famílias que têm três filhos ou mais na França recebem ajuda significativa.

A historiadora elogiou a iniciativa de se promover o debate sobre O Corpo das Mulheres no Brasil. "Foi uma oportunidade ímpar de reflexão sobre a realidade brasileira e rever a situação da França. Para vocês, brasileiros, um meio de refletir sobre as formas de se expor os problemas de seu país", avalia Françoise, que ainda observa: "achei muito interessante também o fato de existir lugar em uma faculdade de medicina para debates sociológicos, políticos e de outras áreas da saúde. Esse espaço não existe na França".

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