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Artigos de saúde

Como o Suicídio de Pacientes Vem Afetando os Médicos Psiquiatras

O estresse entre os médicos tem sido considerado como um importante problema de saúde ocupacional. Vários estudos têm mostrado um alto índice de problemas emocionais em algumas especialidades médicas, como nos clínicos gerais, nos pediatras, nos anestesistas e nos cirurgiões. Mas os psiquiatras têm sido descritos como os especialistas com maior índice de exaustão, depressão e outros distúrbios psiquiátricos relacionados ao trabalho. Vários são os fatores estressantes identificados, como, por exemplo, a grande jornada de trabalho, porém o impacto do suicídio de pacientes que parece ser um dos principais fatores, ainda não foi bem investigado. Contudo, esta questão já foi abordada em estudos anteriores nos Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia, mas muitos desses estudos são limitados e pouco conclusivos, uma vez que entrevistaram poucos profissionais, ou apenas relataram um caso separadamente, ou não apresentaram uma boa evidência de como o suicídio afeta realmente a vida dos médicos psiquiatras. Portanto faz-se necessária a realização de um estudo mais elaborado, para se chegar à conclusão de como realmente o auto-extermínio dos pacientes atua nestes especialistas.

O Estudo

Tentando determinar como o suicídio de pacientes afeta os psiquiatras, um grupo de cientistas escoceses (do Department of Mental Health, Medical School, University of Aberdeen, Foresterhill, Aberdeen AB25 2ZD, Royal Cornhill Hospital, Aberdeen AB25 2ZH), liderados pelo Dr. David A. Alexander, conduziu um estudo baseado nas respostas de alguns médicos psiquiatras a respeito de suicídio entre seus pacientes.

Os resultados dessa pesquisa foram publicados na revista BMJ de junho de 2000. Os pesquisadores enviaram um questionário confidencial para psiquiatras escoceses pertencentes ao Royal College of Psychiatrists. Esse questionário que foi baseado na literatura e em artigos prévios, e elaborados com a ajuda de outros colegas psiquiatras, compunha-se de duas partes: a primeira trazia perguntas relativas às informações pessoais como sexo e idade, bem como à especialidade ou à sub-especialidade, ao número de anos de psiquiatria, ao número de anos de atendimento a pacientes e por fim ao número de pacientes que cometeram suicídio durante o acompanhamento. A segunda parte requeria aos psiquiatras que relatassem o caso mais difícil de suicídio que tiveram, e qual foi o impacto na sua vida pessoal e profissional, e quais os fatores que os ajudaram a lidar com essa situação.

Resultados

Quase 80% dos questionários foram respondidos. Mas nem todos foram respondidos completamente. A maioria dos entrevistados era homens. A média de tempo como psiquiatra era em torno de 17 anos e a média de atendimento era de 10 anos. Foram entrevistados psiquiatras especializados em psiquiatria geral de adultos, em psiquiatria geriátrica, em reabilitação, em psiquiatria infantil e de adolescentes, em psiquiatria forense e em psicoterapias relacionadas ao abuso de drogas.

Cerca de 70% dos entrevistados relataram a presença de suicídio entre seus pacientes sendo que a maioria teve de dois a seis casos.

Dos médicos que deram informações a respeito do caso de suicídio que mais os afetaram, metade dos pacientes era atendida em consultórios, o restante era interno e apenas dois eram presidiários. Dos pacientes internos alguns se suicidaram dentro das enfermarias e outros nas áreas externas dos hospitais.

Metade dos pacientes tinham idéias de auto-extermínio. E poucos já tinham tentado suicídio antes. Um terço dos psiquiatras admitiram que os casos de suicídio afetaram suas vidas pessoais e os efeitos mais comuns foram a irritabilidade em casa, menor capacidade de lidar com os problemas familiares, perda do sono, baixa do humor, preocupação excessiva com suicídio e diminuição da confiança em si próprios. Porém nenhum relatou ter se afastado do trabalho após os casos de suicídio, mas muitos desses efeitos foram persistentes.

Muitos psiquiatras relataram que mudaram o modo de lidarem com casos potenciais de suicídio. As mudanças mais comuns foram um controle mais estruturado, uma maior consciência do risco do auto-extermínio, uma melhor comunicação, uma maior disposição em usar testes de saúde mental, e uma maior precaução e cuidado com os pacientes em risco potencial de suicídio.

A maioria dos médicos foi de opinião que a divulgação pela mídia a respeito dos casos de suicídio foi maléfica e agravaram os efeitos em si próprios. Mas grande número deles considerou que as reuniões em associações foram benéficas, bem como os artigos em revistas médicas que lidavam com assunto. Alguns médicos foram ao funeral dos pacientes e, entre estes, alguns acharam isto benéfico. Os trâmites legais e disciplinares foram considerados com unânimidade como desfavoráveis, pois todos fizeram com que os psiquiatras se sentissem culpados ou foram tidos como "bode expiatório"

Os aspectos que foram considerados de grande ajuda na superação dos efeitos maléficos foram as reuniões com outros psiquiatras, o apoio da própria família e dos amigos. Os médicos clínicos ou a igreja quase não foram consultados. As organizações de defesa do médico pouco foram procuradas, mas quando o fizeram, revelaram-se de grande ajuda.

Ao final do trabalho, os autores chegaram à conclusão que o suicídio entre pacientes realmente afeta de maneira negativa a vida pessoal e profissional dos psiquiatras. Concluíram, ainda, que o suporte familiar, dos amigos e dos colegas é particularmente importante na superação desses efeitos, bem como os artigos em revistas e as reuniões em associações. Por outro lado, os inquéritos formais são considerados maléficos, uma vez que criam um clima de culpa entre os psiquiatras. Portanto, estes autores acreditam que os psiquiatras deveriam ser melhor preparados para tratar os pacientes potencialmente suicidas, e também a lidar com as conseqüências de um suicídio já ocorrido e com a falibilidade profissional, uma vez que os médicos não podem resolver todos os problemas dos pacientes, abstraindo, desta forma, o sentimento de culpa.

Fonte: BMJ 200;320:1571-1574 (10 june)

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