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Artigos de saúde

Devem os Médicos Prescrever Atividades Religiosas?

Introdução

O interesse pelo papel da religião na medicina está crescendo entre os médicos e o público em geral. Os cidadãos americanos são muito religiosos e a maioria acredita no céu e inferno, na cura pelo poder das orações e na capacidade da fé em auxiliar na recuperação de doenças. A imprensa popular tem publicado muitos artigos afirmando que a religião promove conforto e cura.

Está crescendo também o interesse da comunidade médica em estabelecer a conexão entre religião e saúde. Uma fundação americana, The National Institute for Healthcare Research, vem divulgando extensa literatura com artigos sugerindo que a fé e a prática religiosa estão fortemente associadas ao processo de saúde. A organização Word Wide Web recomenda aos os médicos que dispensem mais atenção aos assuntos religiosos e que colham sempre a história espiritual, juntamente com a anamnese e o exame físico dos pacientes. Em adição, o National Institute on Aging e a Harvard Medical School estão patrocinando reuniões e debates para promover a integração da prática médica com a prática espiritual. Uma pesquisa, realizada com os clínicos gerais que atuam em ambulatórios ou consultórios, mostrou que a maioria apóia fortemente a concepção de que a religião pode realmente promover curas. Muitos médicos acreditam que ir à igreja promove saúde, e esperam que o muro existente entre religião e medicina caia, e que a medicina do futuro seja baseada na oração e nas tecnologias.

Muitas escolas nos Estados Unidos já ofereçam cursos de religião em seus currículos. O American Association of Medical Colleges oferece uma conferência intitulada "Spirituality and Medicine: Curricular Development", que a cada ano atrai mais de cem médicos, membros de faculdade e capelães médicos de hospitais e faculdades de medicina de todo os EUA.

Um grupo de médicos capelães americanos da Universidade de Columbia, liderado pelo Dr. Richard P. Sloan, escreveu um artigo, para tentar analisar a associação entre religião e medicina, onde examinaram três aspectos que justificassem cientificamente a relação entre atividades religiosas com o processo de saúde: se atividades religiosas estão associadas com boa saúde ou melhora desta, se estas atividades promovem conforto e se os pacientes desejam que seus médicos incluam na prática médica assuntos espirituais. O artigo foi publicado na revista The New England Journal of Medicine de junho de 2000.

Há alguma evidência científica da ligação da religião com a saúde?

Muitos autores afirmam que há evidências substanciais para afirmar que a atividade religiosa promove saúde. Mas os autores deste artigo acreditam que essas evidências são generalizadamente fracas e não convincentes, pois são baseadas em estudos com metodologia fraca e com resultados conflitantes. Alguns artigos publicados recentemente, conduzidos com um bom embasamento científico, mostraram que a assistência dos serviços religiosos estava associada com a redução da mortalidade. Contudo, vários argumentos epidemiológicos nesses artigos não permitem que se justifique a recomendação de atividades religiosas por parte dos médicos.

Primeiro, a evidência mais forte do efeito da religião sobre a saúde veio de estudos realizados relacionados ao comparecimento em igrejas. Não há portanto uma evidência convincente, uma vez que nada se afirmou em relação a outras práticas religiosas, como a oração, a leitura da Bíblia e o hábito de se assistir programas religiosos na televisão.

Segundo, os trabalhos não levam em consideração as diferentes religiões, o que pode também alterar os resultados das pesquisas.

E, por fim, esses estudos relacionam a prática religiosa com a saúde, mas não associam esta com o fato de terem sido recomendadas por médicos ou se já estavam presentes, como um hábito de vida anterior. Os autores acreditam que este fato pode dificultar a condução de estudos bem feitos.

Deveriam os médicos recomendar atividades religiosas como meio de promoção de conforto?

Alguns autores recomendam, mesmo na ausência de suporte científico, seja permitido aos médicos a indicação de atividades religiosas, pois acreditam que estas promovem conforto, e que médico deve curar às vezes, consolar quase sempre e confortar sempre. Tal afirmativa pode ser verdade para muitos pacientes, mas para outros isto pode não ocorrer.

Os médicos estão acostumados a recomendar tratamentos com muita autoridade e o tratamento é bem sucedido muitas vezes, por que o paciente segue rigorosamente as recomendações médicas. A mesma influência pode ser esperada em relação à recomendação de atividades religiosas. Os autores acreditam que os médicos e os pacientes estão em perigo se acreditarem que a autoridade médica pode ser usada nesses casos de aconselhamento de atividades religiosas, pois pode fazer com que os pacientes percam sua autonomia.

Convidar os pacientes para conversar a respeito de assuntos religiosos não é um processo simples, pois a literatura médica em assuntos relacionados à religião se baseia principalmente em um contexto cristão. Na verdade, as diversidades culturais e religiosas estão crescendo em todo mundo, ficando difícil para os médicos saberem abordar o assunto com os pacientes, sem ofendê-los. Sem dúvida, muitos pacientes esperam ter cuidados médicos com pessoas da sua própria religião, mas o sistema de saúde não permite esta prática.

Além do mais, os médicos não estão preparados para conversar com seus pacientes a respeito de temas espirituais, pois não dominam assuntos religiosos. Mas este tipo de assunto poderia ser abordado por capelães e outros chefes espirituais e, logo que pacientes necessitassem dessa indicação, estes profissionais seriam consultados.

Por tudo isso, os autores acreditam que ainda não está claro se os médicos devem iniciar discussões religiosas com os pacientes, mesmo que seja com a intenção de promover conforto.

Será que os pacientes desejam que assuntos religiosos sejam introduzidos em seus tratamentos de saúde?

Muitos artigos afirmaram que a maioria dos pacientes deseja que assuntos religiosos sejam abordados nas consultas e que os médicos orassem junto com eles. Mas os autores acreditam que estes desejos dos pacientes não podem ser generalizados, pois muitos destes estudos foram baseados em situações hipotéticas, ou foram feitas com pacientes atendidos em ambulatórios ou consultórios, onde os médicos e pacientes se conheciam muito bem. Os autores acreditam, ainda, que em hospitais de urgência e centros cirúrgicos os resultados poderiam ser divergentes. Portanto, os autores afirmam que somente o desejo de alguns pacientes não é suficiente para que se estabeleça a prática de se recomendar atividades religiosas.

Conclusão

Ao final do trabalho, os autores chegaram à conclusão de que a tentativa de se justificar a prática de atividades religiosas e de se colocá-la em parâmetros científicos é uma tentativa fora da realidade além de superficial, visto que a importância da religião não está ligada somente ao estado de saúde dos pacientes. Eles acreditam que a religião é muito mais do que coleções de artigos, e não pode ser determinada instrumentalmente como alguma descoberta científica, pois é um caminho espiritual para a humanidade.

Fonte: The New England Journal of Medicine - June 22,2000-vol.342, Nº.25.

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