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Artigos de saúde

Metrópoles e Vida Psíquica

Nesta Reportagem:

- Doenças Psíquicas Resultantes da Vida Metropolitana
- Psicoterapia Pode Ajudar a Enfrentar Dificuldades Emocionais Típicas das Grandes Cidades
- As Condições Psíquicas são Diferentes de Pessoa para Pessoa
- Férias Podem Trazer Alívio, Mas Não Significam Cura


"'A realidade concreta de tuas esquinas' influencia a vida psíquica dos habitantes de cidades como São Paulo. Nesta reportagem, psicólogos analisam o impacto do estresse urbano sobre a saúde mental da população."

A vida numa grande cidade é agitada e cheia de nuances estressantes. Esse fato não é novo, nem há dúvidas sobre seus efeitos na nossa sociedade. Sabe-se que viver numa cidade grande como São Paulo é estar sempre cercado de problemas como os relacionados ao trânsito, à violência urbana, ao caos das enchentes, da falta de condições básicas de saneamento, enfim, é deparar-se quotidianamente com as agruras da fome, da miséria, da falta de solidariedade... Esta realidade desencadeia uma série de doenças psíquicas, relacionadas à angústia e ao estresse.

Sabe-se também que numa cidade grande o estado emocional das pessoas está constantemente sofrendo "bombardeios" das dificuldades psicológicas ligadas aos fatores acima apontados. Contudo, as perguntas que surgem quando verificamos todas essas questões são: por que não podemos fazer nada para alterar essa situação? Por que não se busca auxílio para as dificuldades emocionais decorrentes do quadro acima apresentado?

Além das dificuldades típicas da vida em uma cidade do porte de São Paulo, maior cidade da América do Sul e entre as cinco maiores do mundo, pode-se apontar, ainda, outras conseqüências dos grandes centros: as famílias cada vez têm menos oportunidade de convivência em função da "falta de tempo". "Os fatores afetivos estão sempre colocados de lado, como se não fossem aspectos primordiais da vida humana", afirma o Psicólogo e Psicanalista Fernando Falabella Tavares de Lima, do Netpsi - Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia.

O psicólogo Marcelo Sodelli, também do Netpsi, complementa: "No lugar de situações de prazer e de condições de lazer, sempre há mais um trabalho a ser desenvolvido, mais uma tarefa a ser cumprida. Como conseqüência da vida 'corrida', da falta de prazer, algumas pessoas lançam mão de recursos como o uso de álcool e drogas, de relações emocionais e afetivas cheias de conflitos, enfim, vêem a situação de suas famílias se complicarem terrivelmente". De acordo com os especialistas, estas são as respostas psicológicas ao quadro conturbado em que se vive nas grandes cidades.

De acordo com Alexandre Mattos, outro psicólogo e psicanalista do Netpsi, "o preconceito e o medo de ser taxado de 'louco' são algumas das causas que afastam as pessoas da busca pelos processos de psicoterapia, que tanto podem auxiliar na resolução de conflitos e, conseqüentemente, na diminuição dos problemas cotidianos". Além do medo de sofrer discriminação e da desinformação sobre a importância e a utilidade da Psicologia na vida das pessoas, outro fator que as afasta dos consultórios psicológicos, de acordo com os especialistas do Núcleo, é o 'medo' dos altos custos que os trabalhos psicoterápicos em geral representam.

Doenças Psíquicas Resultantes da Vida Metropolitana

De acordo com o Psicanalista Fernando Falabella Tavares de Lima, uma série de doenças relacionadas às crises de angústia e ansiedade são agravadas pela vida metropolitana, em especial as relacionadas às crises de angústia e ansiedade. "Podemos citar a Síndrome do Pânico. Também doenças relacionadas ao estresse, tanto do ponto de vista estritamente psíquico, quanto do ponto de vista psicossomático. Em algumas circunstâncias as crises da família na grande cidade interferem em manifestações de ansiedade nas crianças, nas chamadas Hiperativas, e nos adolescentes, facilitando o acesso ao uso de drogas, etc", explica o psicólogo em entrevista exclusiva a esta reportagem.

Psicoterapia Pode Ajudar a Enfrentar Dificuldades Emocionais Típicas das Grandes Cidades

Para o psicanalista do Netpsi, a psicoterapia de base psicanalítica é a maneira mais correta de se 'prevenir' a manifestação destas desordens psíquicas. "Explicando melhor: como essas doenças psíquicas decorrentes do estilo de vida das grandes cidades são impossíveis de serem previstas, pode-se dizer que um sujeito estará mais apto a enfrentar e superar as dificuldades emocionais das grandes cidades, se estiver 'bem analisado'".

O Dr. Fernando pondera, contudo, que é claro que é relativa a ajuda da psicoterapia, mas ele reforça que este seja de fato um caminho que facilita a superação das decorrências psíquicas da vida nas metrópoles. "Caso contrário, acaba-se caindo nas sugestões de alguns médicos, como os cardiologistas, por exemplo, que dizem aos seus pacientes que estes devem evitar a ansiedade e o estresse. Contudo, falam isso como se esses problemas fossem uma escolha dos seus clientes, ou seja, como se fossem absolutamente conscientes e pudessem ser facilmente solucionados", critica.

As Condições Psíquicas são Diferentes de Pessoa para Pessoa

Por outro lado, o diretor clínico do Netpsi convém que o psiquismo das pessoas não é igual e que, portanto, as condições de superação das dificuldades divergem de pessoa para pessoa. "Contudo, não sabemos de antemão quem é mais apto a superar uma crise desse tipo, causada pelos grandes centros e suas dificuldades cotidianas", reflete o estudioso que pondera ainda que "por outro lado, falar em imunidade, para a Psicanálise, é algo impossível, pois a vida psíquica e os recursos do aparelho psíquico estão em constante mudança. Alguém muito bem adaptado hoje pode sofrer uma conseqüência inimaginável no próximo mês, devido a novas circunstâncias da vida".

Férias Podem Trazer Alívio, Mas Não Significam Cura

Embora alguns médicos sugiram "férias" como uma solução para os problemas de ansiedade decorrentes da vida urbana, recomendando uma ida para o campo, ou para estações de água, o psicólogo Fernando lembra que o estresse que influi na vida psíquica é algo muitas vezes 'levado' para as férias, por meio de lembranças, fantasias e reminiscências da vida inconsciente. "Sendo assim, não são férias na Europa que vão 'curar' uma pessoa. Elas podem ser muito úteis e servir como uma pausa, mas não são terapêuticas a ponto de solucionar todos os problemas", afirma, lembrando que, afinal, os problemas da grande cidade estarão todos esperando por quem viajou em férias, e que aprender a lidar com eles é a única saída para não adoecer psíquica e fisicamente.

Contingências como as do racionamento de energia, no Brasil, afetam terrivelmente o funcionamento de cidades grandes. Esta ameaça pode, segundo o especialista, ser mais uma fonte de ansiedade nas pessoas. O não funcionamento do setor de saúde, de trânsito, dos condomínios e seus elevadores e todas as suas dramáticas decorrências, na segurança pública, por exemplo, devem, na opinião de Fernando, resultar em ônus maiores nas grandes cidades do que no interior, que também deverá ser atingido.

Terapias alternativas, como meditação, florais, aromaterapia, cromoterapia, massagens, entre outras, não passam de paliativos, de acordo com o profissional do Netpsi. "Com certeza, não vão às causas, logo não podemos chamá-los de formas de solução. Não considero que esses métodos sejam alternativas de tratamento eficientes. Mas, não podemos deixar de citar que são métodos que prometem soluções simples, rápidas e isso chama bastante a atenção das pessoas.

Ninguém está disposto a esperar muito pela solução de seus conflitos, assim as pessoas lançam mão desses artifícios, infelizmente", lamenta o Dr. Fernando, que justifica: "Digo isso pois acabam perdendo dinheiro e tempo, além de acreditarem que resolveram seus conflitos e se decepcionarem, no futuro, ao verificar que não passou de uma ilusão.

Já no caso das pessoas que buscam isso como quem busca um alívio momentâneo, acho que alguns desses métodos podem ser interessantes, no combate ao estresse". Por exemplo, diz ele, as massagens podem ser muito interessantes para aliviar os sintomas de dores físicas, psicossomáticas, mas não vão mudar a forma como os cidadãos lidam com o acúmulo de tarefas diárias que são obrigados a enfrentar, com o jeito com que se comportam no trânsito ou na sua relação com os vizinhos e colegas de trabalho, na forma como vivenciam seu parco convívio familiar, ou mesmo de gerenciar seu tempo de forma mais eficaz, para também terem direito ao lazer. Estas questões, aparentemente tão claras para todo mundo, explica o psicólogo, só se modificam no plano inconsciente quando trabalhadas em análise.

Copyright © 2001 eHealth Latin America                 30 de Maio de 2001



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