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Crianças e adolescentes como atores de atos violentos: Analisando fatores de risco

Neste Artigo:

- Introdução
- O Estudo
- Resultados
- Comentários e Conclusões
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Várias informações provenientes de diferentes tipos de estudos e da mídia em geral têm documentado, com ênfase, a exposição de crianças norte-americanas à violência em suas casas, vizinhança e escolas. Ao mesmo tempo, há um crescente número de artigos, livros e reportagens divulgando as descobertas de estudiosos sobre o assunto: a influência da violência sofrida e/ou observada por crianças, no seu desenvolvimento comportamental e emocional futuro. É muito provável que no Brasil tais índices não sejam tão diferentes.

Introdução

Mesmo sabendo da complexidade crescente de se lidar com a questão da violência, há uma necessidade urgente de se conseguir identificar aquelas crianças e adolescentes em vias de cometer um ato criminoso. A importância da aquisição de tais informações reside no fato de serem os jovens, uma importante parcela da população que perpetua a violência urbana. De 1985 a 1994, a taxa de homicídios realizados por jovens de 14-17 anos aumentou 172% nos EUA, tendo diminuído 39% de 1994-1999. A taxa de homicídios realizados por adultos acima de 25 anos diminuiu 25%. Como exemplo, têm-se os dados do Centro de Controle de Doenças dos EUA, que estimou a presença de 127 casos de agressões físicas por cada 100 estudantes do ensino médio, nos EUA, no ano passado. Um outro estudo feito pelo Instituto Nacional de Justiça dos EUA, utilizando 4.000 jovens presos, encontrou 22% de jovens portadores de armas de fogo e 38% dos jovens masculinos disseram achar normal atirar em pessoas que os machucassem.

Na população adulta, ameaças têm sido consideradas como um fator de risco para atos violentos. Tais ameaças são comuns em locais de trabalho como nos centros de emergência dos hospitais, hospitais psiquiátricos e com funcionários públicos que trabalham na área de saúde no atendimento ao público. Entretanto, há alguma relação de risco entre ameaças de violência e perpetuação da mesma em crianças e adolescentes?

Com o intuito de se verificar tais riscos, foi feito uma avaliação de dados provenientes de três grandes estudos com crianças e adolescentes. O resumo da interpretação desses dados, feito pelo Dr. Mark Singer e colaboradores, do Instituto Comunitário de Saúde Mental de Cuyahoga County, Case Western Reserve University, Cleveland – Ohio – EUA. Um resumo desse trabalho foi publicado na revista médica Archives of Pediatric and Adolescent Medicine, deste ano.

O estudo

Como já foi dito acima, três estudos foram analisados. Todos utilizando crianças e adolescentes de famílias de média e baixa renda. Dois dos estudos realizaram um questionário para se investigar a relação entre a exposição à violência e sintomas de trauma psicológico, em 2.245 crianças e 3.724 adolescentes. O terceiro estudo testou o efeito de um programa de prevenção à violência escolar (3.518 participantes).

Mesmo sendo os três estudos diferentes, todos eles possuíram um questionário com perguntas relacionadas com ameaças de violência sofrida e atitudes violentas no ano anterior. Seguem algumas perguntas realizadas: com qual freqüência você no último ano (a) ameaçou machucar alguém? (b) deu um tapa, bateu ou deu um murro antes de ser agredido? (c) deu um tapa, bateu ou deu um murro depois de ser agredido? (d) bateu em alguém? (e) atacou ou esfaqueou alguém?

As respostas foram divididas em: nunca, algumas vezes, freqüentemente e quase todos os dias.

Os resultados foram submetidos a análises estatísticas cuja descrição foge do objetivo deste texto. Após tais análises, dividiu-se os participantes em três grupos: (1) crianças que não ameaçam os outros, (2) crianças que ameaçam os outros com pouca freqüência e (3) crianças que ameaçam os outros com freqüência.

Resultados

Aproximadamente, a metade dos participantes era do sexo feminino. A percentagem de brancos variou de 31% a 57%, de hispânicos (latinos) variou de 5% a 51% e a de negros, de 6% a 35%. A idade variou de 7 a 19 anos.

Cerca de 36% a 50% dos participantes referiram uma ameaça no último ano em ambos estudos. O ato violento mais relatado por homens e mulheres foi o de revidar uma agressão.

A idade daqueles participantes do grupo 2 e 3 foi maior do que as do grupo 1. Os homens também estiveram mais relacionados com os grupos 2 e 3.

Aqueles participantes que relataram morar com ambos os pais tiveram uma menor participação nos grupos 2 e 3, ou seja, ameaçavam menos os outros.

Os jovens dos grupos 2 e 3 estiveram relacionados 3 a 4 vezes mais, com os cinco atos violentos exemplificados pelas perguntas acima.

Comentários e Conclusões

O risco relativo de se realizar atos violentos foi significativamente maior, em todos os estudos, naquelas pessoas que relataram fazer ameaças aos outros com mais freqüência. Jovens do grupo 3 tiveram 14 a 23 vezes mais risco de atacar alguém com uma faca e 17 vezes mais risco de atirar em alguém.

Essa forte relação entre ameaças de violência, e atos de violência, tem implicações práticas muito importantes, na prevenção da violência entre os jovens. Tais dados sugerem que jovens que ameaçam os outros devem ser tratados com seriedade através de regulamentos e leis para que os mesmos recebam uma abordagem adequada. Assim, quando uma criança ou adolescente ameaça machucar outra pessoa, ele (a) deve ser submetido a uma avaliação de seu potencial de violência. Existem alguns protocolos feitos para tal avaliação.

A maioria de profissionais que trabalha com crianças e adolescentes tem uma atitude ativa quando percebem comportamentos auto-agressivos e não liberam tais jovens da supervisão, enquanto não conseguem uma boa avaliação de seu potencial suicida. Os autores do artigo em questão crêem que tal conduta deveria ser realizada também naqueles jovens que têm atitudes agressivas para com os outros. Da mesma forma que comportamentos considerados suicidas, quando percebidos por amigos, colegas, conhecidos e familiares devem ser relatados aos responsáveis, assim devem ser tratados também os comportamentos agressivos interpessoais. É de extrema importância que as crianças compreendam que podem prevenir tais agressões através de suas próprias ações, relatando aos responsáveis quando sofrerem ou presenciarem tais atos. Assim também devem ser educados os professores e todos os tipos de profissionais que lidam com crianças, para que possam encorajar tais crianças a relatarem tais casos. Esse pode ser um grande passo para que se possa formular planos pedagógico-terapêuticos para os agressores antes que eles tenham que responder legalmente pelos seus atos criminosos.

Fonte: Arch Pediatr Adolecs Med. 2000;154:785-790.

Copyright © 2003 Bibliomed, Inc.


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