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Artigos de saúde

Ciência Versus Alternativismo - As Fronteiras entre a Medicina Alternativa e a Tradicional

É cada vez mais difícil entender a especialidade de um médico. Clínico-geral homeopata? Fisiologista ortomolecular? Psiquiatra antroposófico? As fronteiras entre medicina tradicional e alternativa parecem cada vez mais obscuras. Quem procura tratamento deve, em primeiro lugar, entender que só é considerado médico o sujeito com diploma universitário e registro no Conselho Regional de Medicina. Os chamados terapeutas holísticos, de Florais de Bach, de íris, têm, quase sempre, outro tipo de formação. "Não fazemos parte da medicina e nem queremos. Não substituímos outros tratamentos. As pessoas têm médico e psicoterapeuta, por que não ter médico e terapeuta holístico? São complementares", diz Luiz Antônio Silva de Freitas, ex-presidente do Departamento de Homeopatia da Associação Paulista de Medicina. O segundo passo é entender quem é quem na grande categoria dos médicos.

Profissionais formados nas mesmas universidades discordam em questões básicas e muitas vezes, trocam acusações. A alopatia (medicina tradicional) abarca 64 especialidades reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM): urologia, neurologia, ginecologia, pediatria, entre outras. Além dessas, apenas as alternativas homeopatia e acupuntura têm o aval do CFM. "Não estamos estudando pretendentes, e sim reavaliando o que já existe", explica Edson de Oliveira Andrade, presidente do conselho. "Para aceitar uma nova especialidade, não vemos só as pesquisas. Estudamos como vai ser a formação de profissionais, a sua organização, se ela não contempla algo já situado em outra especialidade, a área de atuação", completa Andrade. Mas não basta se guiar pelas normas do CFM. Apesar de ser reconhecida pelo conselho, a homeopatia, por exemplo, não é considerada científica por muitos médicos. E vários deles, diplomados, usam técnicas não-reconhecidas (ortomolecular, antroposófica etc.) porque acusam a comunidade científica de ser fechada.

O médico alemão Samuel Hahnemann desenvolveu a homeopatia em 1796. Os homeopatas afirmam tratar os doentes e não as doenças. A medicina antroposóficado, do grego ánthropos (homem) + sophía (sabedoria), foi criada em 1920 pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner e considera o homem como constituído de uma parte física, uma parte vital, outra emocional e um cerne espiritual. A acupuntura, do latim acus (agulha) + punctum (picada), foi criada pelos chineses em torno de 1000 a.C. e consiste em estimular pontos específicos do corpo com agulhas, laser ou ímãs, para aliviar dores, como enxaqueca e artrite. A maioria das abordagens alternativas estão baseadas no vitalismo, o conceito de que as funções corporais existem devido a um princípio vital ou força da vida distinta das forças físicas explicáveis pelas leis da física e da química e detectáveis pela instrumentação científica. Os praticantes cujos métodos são baseados na filosofia vitalista sustentam que as doenças deveriam ser tratadas pela "estimulação da habilidade do corpo para curar a si mesmo" ao invés de "tratar os sintomas". Os homeopatas, por exemplo, explicam que as doenças acontecem devido a um distúrbio da "força vital" do corpo, ao passo que os acupunturistas dizem que a doença é devido ao desequilíbrio no fluxo da "energia vital" (chi ou Qi). No entanto, as energias postuladas pelos vitalistas não podem ser mensuradas pelos métodos científicos.

Alopatiado grego állos (outro) + páthos (doença): é a medicina tradicional, um sistema terapêutico que consiste em tratar as doenças por meios contrários a elas, procurando conhecer suas causas e combatê-las. Os procedimentos, diagnósticos e medicamentos alopáticos são em geral resultado de estudos científicos. O método científico é o conjunto de ferramentas para ponderar e investigar o mundo natural. Os cientistas fazem hipóteses sobre como o mundo funciona e então conduzem experiências para testá-las. Para serem testáveis, as hipóteses devem ser passíveis de refutação. A comunidade científica procura testar a validade das idéias sobre a natureza e o tratamento das doenças. Os julgamentos são fundamentados no método científico. Nos últimos 150 anos, a maioria dos avanços na medicina, e em todas as outras ciências, tem resultado do seu uso. Desta forma, para a maioria dos cientistas, a medicina alternativa e todas as suas práticas, são altamente questionáveis.

Ou é medicina ou não é

Dr. Paulo Farber, acupunturista e autor do livro "A Medicina do Século XXI - Uso conjunto da Medicina Ocidental e da Oriental", diz que não existe medicina alternativa. "É um absurdo. Ou é medicina ou não é. O que existem são técnicas complementares de tratamento, baseadas em teorias diferentes da medicina 'oficial', mas que, cientificamente comprovadas, devem então fazer parte da medicina. A acupuntura é uma técnica milenar da medicina tradicional chinesa, atualmente muito aceita no nosso meio. Prova disso é que é reconhecida Especialidade Médica pelo Conselho Federal de Medicina e entre outras coisas, é matéria da Graduação da Faculdade de Medicina da USP. No entanto, é uma técnica que funciona melhor se aplicada em conjunto com a medicina ocidental".

Em artigo recente, o presidente do National Council Against Health Fraud, órgão de saúde do governo americano, William T. Jarvis, Ph.D., apontou: "Algumas técnicas referidas como alternativas podem ser apropriadamente usadas como parte da arte da assistência ao paciente. Técnicas de relaxamento e massagens são exemplos. Mas procedimentos ligados a sistemas de crenças que rejeitam a própria ciência não tem lugar na medicina responsável. Procedimentos inúteis não adicionam nada ao resultado, apenas às despesas."

Efeito placebo

Na década de 1950, cientistas descobriram que aproximadamente um em cada três pacientes se sentia melhor mesmo quando recebia uma substância inerte farmacologicamente tal como um comprimido de açúcar. Isto foi chamado de "efeito placebo". Ou seja, a maneira que percebemos as experiências de nosso corpo pode ser alterada por nosso estado de espírito e nossas crenças. O número de pessoas que respondem aos placebos pode ser ainda maior, especialmente se o paciente ou o médico que está dando o tratamento fervorosamente acreditam que ele funcionará. Este é o motivo pelo qual a comunidade científica utiliza o método chamado duplo-cego, durante o estudo da eficácia de um remédio. Neste procedimento, um grupo de pacientes recebe o medicamento, enquanto o outro ganha placebo (pílulas feitas de água e farinha). Para garantir a imparcialidade do procedimento, pacientes e médicos não sabem quem recebe o remédio. Neste sentido, para a comunidade científica, os testemunhos podem ser um bom ponto de partida para começar a procurar por respostas, mas não deveriam ser considerados o fim da jornada.

Homeopatia em debate

Fica evidente a falta de consenso entre médicos alternativos e tradicionais. Isaias Raw, professor emérito da Faculdade de Medicina da USP e presidente da Fundação Butantan, faz questão de frisar que a homeopatia não tem comprovação científica e que sua ação não pode ser explicada a partir dos princípios da bioquímica. Por outro lado, Luiz Antônio Silva de Freitas, ex-presidente do Departamento de Homeopatia da Associação Paulista de Medicina, diz que a homeopatia é comprovada na prática, na cura de pacientes ao longo dos últimos 200 anos. A base da teoria homeopática é o princípio da semelhança. Para desenvolver um remédio homeopático para gastrite, por exemplo, são testadas substâncias em pessoas sadias até que uma delas provoque a irritação no estômago. Essa substância será então bastante diluída em água e álcool, até dar origem a um remédio que acirre os sintomas e faça o corpo combater o mal.

Para Raw, a solução homeopática, é apenas água, com mais ou menos poeira. "Não é possível fazer pesquisa científica sem uma metodologia cuidadosamente documentada. É preciso fazer teste com duplo cego, escrever os resultados, submeter a uma revista internacional, retestar em outro lugar, por outro pesquisador. Fora disso, é 'palpitometria'. A homeopatia não tem nenhuma base científica. Eles acreditam que um remédio pode produzir os mesmos efeitos que a doença e assim curar o paciente. Os remédios homeopáticos são tão diluídos que viram água. Qual a lógica de um medicamento que, quanto menos você dá, mais eficaz ele fica? É água, com mais ou menos poeira, mais ou menos mexida", completa.

No entanto, Luiz Freitas afirma que a homeopatia pode não ter substâncias químicas, mas funciona. "Eu também acredito naquilo que é demonstrável, comprovável, mas trabalho com resultados, não com teorias. Lamento que a medicina seja vista apenas como bioquímica. Se tudo tem que ser feito a partir do duplo cego, eu acho que a gente corre um risco muito grande de estar próximo a uma ditadura científica, muito mais do que a uma abertura. É preciso que a gente tente outras formas". Para Freitas, os conhecimentos homeopáticos vieram para somar, não é um conhecimento contra outro. Ou seja, existe uma complementaridade entre alopatia e homeopatia. A medicina antroposófica, que se preocupa com o ser humano como um todo, não tem o menor problema em usar alopatia, homeopatia e também fitoterapia. "É preciso apresentar essas opções ao paciente. Mas doenças agudas requerem intervenção química. Se chegar um sujeito com AVC, não vou ficar contemporizando, uso um corticóide. Mas o que não se fala é da capacidade da indústria farmacêutica em inventar sintomas, doenças, para vender mais remédio", ressalta.

Em meio a tanta polêmica, Pedro Paulo Roque Monteleone, presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, opina: "Concordo que há um excesso de medicamentação. O indivíduo está com febre, o médico dá dipirona ou um ácido acetilsalicílico. Provavelmente os que nada tomaram também abaixaram a temperatura. A coisa mais difícil para o médico é saber se o indivíduo melhorou por causa do remédio, se melhoraria mesmo que não tivesse o remédio ou até se melhorou apesar do remédio. Esse é um fato".

Liberdade de escolha x Escolha responsável

No centro do fogo cruzado, a grande dúvida fica para os pacientes: "O que me ajudará?" Entretanto, médicos, legisladores e a sociedade tem enfoques um tanto diferentes. A questão mais difícil é quem deveria pagar por tratamentos não comprovados? Quais são os limites daquilo que deveria ser coberto por seguros ou intervenção do governo? O ser humano é misterioso e a biologia é provavelmente uma das ciências mais complexas. Dependemos de pessoas com anos de treinamento e experiência para nos aconselhar em áreas nas quais não temos o tempo, meios, educação para tomar uma decisão verdadeiramente racional e informada. Neste sentido, Monteleone alerta: "Gostaria de chamar a atenção da sociedade para que, antes de procurar terapêuticas muitas vezes mais simples ou menos agressivas, ela se informe bem em que área está pisando, porque, infelizmente, hoje estão se vendendo inúmeros medicamentos, inúmeras terapias que não têm qualquer fundamentação científica, melhoram os sintomas como estes melhorariam sem o uso de qualquer medicação; e em outras situações muitas vezes retardam o tratamento eficaz de uma doença mais grave. É preciso revitalizar a medicina de consultório, a anamnese, o exame clínico, em vez de tantos laboratoriais, e pouca terapêutica. Esse é o futuro, e não a alta tecnologia. Mas para fazer diagnóstico com o mínimo de exames é preciso qualificação profissional".

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