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Artigos de saúde

O Risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC) Isquêmico em Pacientes em Uso de Contraceptivo Oral

Os anticoncepcionais orais são amplamente utilizados por mulheres em todo mundo. Sua eficácia e sua praticidade já são bem estabelecidas, porém seus efeitos colaterais e sua segurança em relação ao risco de outras doenças vêm sendo amplamente discutidos desde a sua introdução em 1960. Vários estudos vêm sugerindo que o uso dos anticoncepcionais orais (ACOs) está associado com o aumento do risco de AVC isquêmico (que é um tipo de derrame cerebral provocado por deficiência de fluxo sangüíneo a partes do cérebro, devido a uma obstrução dos vasos por coágulos ou por placas ateromatosas), de trombose venosa profunda (que é a formação de coágulos nas veias dos membros inferiores que está amplamente associada à ocorrência de tromboembolismo pulmonar) e, por fim, de infarto do miocárdio.

A associação, especificamente, do AVC isquêmico com o uso de ACO foi bem avaliada em muitos estudos. Muitos resultados mostraram um aumento do risco de AVC em usuárias de anticoncepcionais, sendo que alguns desses estudos evidenciaram uma relativa proteção em mulheres que cessaram o uso dessas drogas. Porém todos os estudos feitos até hoje foram apenas observacionais, uma vez que realizar estudos comparando dois grupos (estudo caso-controle) seria inviável, pois a anticoncepção seria impossível para o grupo que estivesse usando o placebo, o que seria antiético. Portanto, todos esses estudos foram passíveis de erros, e por outro lado, outros fatores de risco associados, como o tabagismo e a hipertensão arterial, podem não ter sido analisados corretamente.

Como a realização de um estudo comparativo, com boa qualidade e sem chances de erros, para uma correta avaliação dos efeitos adversos do uso dos anticoncepcionais orais, é praticamente impossível, torna-se extremamente indispensável a retirada de conclusões a partir de estudos já existentes. Com esse objetivo um grupo de pesquisadores norte-americanos (do Neurovascular Service, Department of Neurology, University of Califórnia, San Francisco), liderados pela Dra. Leslie Allison Gillum, publicaram um artigo na revista JAMA, o qual se tratava de uma revisão dos estudos publicados entre 1960 e 1999, em todo o mundo, sobre a associação de anticoncepcionais orais com o aumento do risco de AVC isquêmico.

O estudo

Os autores revisaram a literatura médica publicada depois da introdução das pílulas anticoncepcionais, em 1960. Eles buscaram os textos de janeiro de 1960 a novembro de 1999, usando como fonte de pesquisa o Index Medicus (antes de 1966), o MEDLINE (depois de 1966), o BIOSIS (depois de 1985) e o Dissertation Abstracts Online (North American Universities). As palavras-chaves utilizadas na busca foram: contraceptivos orais (efeitos colaterais e complicações), acidente vascular cerebral, estrogênio, isquemia cerebral e trombose. Todas as línguas e tipos de publicações foram utilizados, incluindo artigos de revisão. Algumas bibliografias dos artigos mais pertinentes também foram pesquisadas como referências adicionais. Os livros textos especializados nesse assunto também foram incluídos, bem como as opiniões de especialistas nessa área.

Das 10.409 referências identificadas, apenas 804 foram consideradas potencialmente relevantes. Dessas 804 referências, apenas 73 falavam da relação entre o uso de contraceptivos orais e o AVC isquêmico. Por fim, dos 73 restantes, somente 16 textos foram considerados aptos a fazerem parte do estudo, visto que o restante apresentava dados sem fundamentos estatisticamente corretos.

Resultados

O uso contínuo de contraceptivos orais foi associado com o aumento do risco de AVC isquêmico. O uso de anticoncepcionais com baixa dosagem de estrogênio foi associado a uma menor taxa de AVC. As novas preparações a base de progesterona não apresentaram risco de derrame cerebral. A chance de acidente vascular cerebral não estava presente em mulheres que fizeram uso no passado.
A relação de AVC e de contraceptivos orais praticamente não foi alterado com a associação de fatores de risco, sendo que resultados semelhantes foram encontrados entre fumantes e não-fumantes e em pacientes com ou sem história de enxaqueca. História de hipertensão e idade acima de 35 anos também não foram associados a um aumento das chances de derrame.

Comentários e Conclusões

Por mais de 40 anos, os efeitos adversos dos anticoncepcionais orais vêm sendo amplamente discutidos. Vários estudos sobre esse tema foram publicados, mas as divergências entre os resultados ainda permanecem. Na presente revisão, os autores mostraram a alta associação do uso de ACOs e o derrame cerebral, sendo que dos 16 artigos selecionados, 11 evidenciaram um alto índice de associação.

Apesar do presente estudo não ter evidenciado uma associação entre os fatores de risco em pacientes usuárias de ACOs e o aumento das chances de derrame cerebral, vários outros mostraram um aumento do risco de AVC nessas pacientes. Partindo do princípio de que o uso de contraceptivos orais, por si só, é fator de risco para o derrame cerebral, presume-se que a inclusão de outros fatores de risco aumenta significativamente as chances de AVC. Por isso, os autores acreditam, que as recomendações de se evitar a prescrição de ACOs a pacientes com hipertensão ou tabagismo devem permanecer.

O uso dos contraceptivos orais impede a ocorrência de um grande número de gestações indesejáveis, diminuindo, dessa maneira, as taxas de complicações de abortos e de gestações de alto risco, que em alguns casos podem culminar em um quadro de acidente vascular cerebral. Dessa maneira, se o emprego dos anticoncepcionais fosse abolido, o número de AVCs decorrentes dessas complicações superaria o número de derrames decorrentes do uso dos ACOs. Por isso, os autores acreditam que a prescrição desses medicamentos deve continuar, visto que os benefícios de sua utilização superam os riscos.

Fonte: JAMA. 2000;248: 72-78.

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