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Artigos de saúde

Relacionamento Médico-Paciente sob Ótica de Especialista

Quando um paciente procura o médico, seja no consultório, na enfermaria hospitalar, na emergência ou em casa, de repouso, quase sempre está procurando ajuda para manter ou readquirir a saúde física, emocional ou mental. A tarefa do médico, é trabalhar pela saúde do paciente como um todo, estabelecendo com ele um relacionamento de confiança. Na maioria das consultas, um paciente apresenta uma ou mais queixas e, na grande maioria das vezes, elas são resultados de doenças psicossomáticas.

Para a médica Dra. Bernadete Cattete Blom, especialista em clínica médica e infectologista, o profissional médico só chegará ao diagnóstico, se souber escutar o paciente ficando mais próximo de seu problema, colhendo sua história, dando atenção às suas palavras, assegurando, assim, que ele se sinta melhor só pelo fato de ter estado com o médico. “Não há nada pior no ato médico do que a incomunicabilidade, por isso é importante que o médico possa traduzir os sinais da linguagem do paciente”, comenta (relata).

Dra. Bernadete comenta que a medicina moderna dirigiu a atenção para os exames de laboratórios e os avanços tecnológicos na propedêutica e no diagnóstico das doenças. Contudo é a história clínica e o exame físico bem feitos que resumem as possibilidades diagnósticas, antes de tais exames propedêuticos, dando um caráter humano à consulta e um tratamento bem sucedido ao paciente. “A tecnologia sem médicos não existe. É preciso restabelecer a confiança do paciente no médico e do médico no médico, abrindo mão da tecnologia, quando ela for substituível pelo conhecimento adquirido na formação médica”, afirma.

A interação médico-paciente durante a consulta implica que o médico trabalhe com o paciente e não com a doença. Ele deve informar ao paciente as possibilidades diagnósticas, as implicações prognósticas, explicando com clareza os exames e os tratamentos possíveis. Isso deve ser feito numa interação, em que o paciente participe das escolhas, junto com seu médico.

Planos de saúde e realidade

Segundo Dra. Bernadete, a sociedade atual criou, com os planos de saúde, uma distância entre o paciente e o médico. O paciente não escolhe o profissional que o atenderá, principalmente quando internado, e o médico, por sua vez, também passa a receber e a ser cobrado no seu trabalho por terceiros.

No passado, o médico de família tinha tempo e um vínculo de confiança e segurança com o paciente ao ser procurado para a consulta. Hoje, o médico tem, muitas vezes, o tempo limitado trabalhando em serviços que visam à quantidade, mais do que à qualidade no atendimento. O paciente, pela dificuldade em marcar sua consulta em serviço ambulatorial, é atendido por profissionais diferentes em serviço de emergência, não se estabelecendo uma relação médico-paciente estável.

Vemos, então, a questão da saúde do paciente ser posta em plano secundário por quem realmente é responsável por ela. “É necessário resgatar os princípios do profissional médico, humanizando o atendimento clínico, através da reaproximação médico-paciente. Visitas domiciliares, médicos de família e educação médica continuada são alternativas que contribuirão para restabelecer a confiabilidade nessa relação”, frisa.

A especialista destaca ainda outros aspectos importantes, como a instalação da doença que costuma levar o paciente a reeditar suas ansiedades, suas fantasias e suas expectativas, fruto do seu perfil psicológico, principalmente quando está internado.

O paciente, além do sofrimento físico, pode estar invadido por sentimentos de desamparo, medo, confusão, culpa e vergonha por ter adoecido. Tende a transferir para o seu médico, modelos de como ele se relacionava com figuras do seu passado. “É o fenômeno transferencial, em que o médico pode encontrar desde paciente com dependência total até paciente com hostilidade e negativismo em reconhecer melhorias.

O médico também pode ter sentimentos variados em relação ao paciente (contra-transferência), pode buscar gratificação, através do paciente, para as suas necessidades de amor, amizade, poder, prestígio, sexo ou dinheiro. O tipo de personalidade do médico é um importante fator determinante da qualidade da relação médico-paciente”.

Dra. Bernadete faz questão de lembrar, como exemplo, o profissional depressivo que apresenta pessimismo, o maníaco que apresenta otimismo exagerado e o obsessivo que apresenta rigidez e desgastante detalhismo.

A Universidade na formação profissional

A Faculdade de Medicina deve contribuir na formação psicológica do médico. O excessivo número de profissionais nas faculdades prejudica uma vivência mais particularizada, com prejuízo na formação da identidade médica.

A formação psicológica do médico demanda programa curricular de ensino complementado por um programa de Educação Médica, para modificação de conduta. “O mercado de trabalho induz o estudante a entrar na faculdade já querendo ser especialista, faltando-lhe motivação para o aprendizado da atenção primária de saúde, e, muitas vezes, os professores não estão preparados para servir como um bom modelo para formação psicológica médica.

É necessário mostrar ao profissional que ouvir o paciente representa uma parte importante do apoio de que o cliente necessita”.

O relacionamento médico-paciente é influenciado por outros fatores, que, segundo a especialista, pode começar pelos primeiros encontros, nos quais é importante o médico criar uma atmosfera agradável para o desenvolvimento de um bom relacionamento. Para o paciente, a sala de espera de um consultório quando muito grande é opressiva para ele, fazendo-o sentir que ninguém irá se preocupar com a sua pessoa.

O tempo de espera para a consulta também não deve ser prolongado respeitando-se a marcação do horário para o cliente, evitando-se os sentimentos de ansiedade e desamparo. Quando a espera é longa, o paciente deve ser tranqüilizado e informado dos motivos da demora, para que se sinta considerado minimizando-se a incerteza do tempo dessa espera e demonstrando que o paciente é importante para o médico.

Uma recepcionista atenciosa e um consultório simples com conforto, com banheiros, jornais revistas, músicas - são recursos para um ambiente de bem-estar. Isso impede os sentimentos e os comportamentos desagradáveis que, às vezes, algum paciente possa apresentar ao médico no início da consulta, gerando desconfiança e má vontade para cooperar.

Deixar o paciente esperando, além da hora da consulta marcada é ainda mais prejudicial para o relacionamento médico-paciente do que em situações de consulta acidentalmente não agendadas, lembra a médica. O profissional deve sempre externar o seu pesar pelo atraso, justificando-se.

Ao atender o paciente, o médico deve dedicar toda a sua atenção a ele, não externando impaciência, pressa, sono, evitando atender telefone ou estabelecer qualquer outra interrupção durante o tempo reservado à consulta. Uma privacidade sem interrupção facilita o relato das queixas nos seus aspectos mais íntimos, favorecendo o diagnóstico do doente e de seus problemas psicossociais. Em situações de desconforto, o desejo de cooperar do paciente não acontece.

O médico, por sua vez, pode dedicar pouco tempo ao paciente a fim de evitar situações que possam ameaçar sua competência e suas deficiências. Assim, não estabelecendo confiança no relacionamento, ele leva o paciente a passar de médico para médico, realizando um número grande de exames repetidos, com gastos enormes e tratamento não tão bem sucedido.

Na prática médica diária, lembra Dra. Bernadete, o médico vai lidar com pacientes cujos valores, preconceitos, crenças políticas e religiosas, podem diferir dos seus. Esses valores são capazes de gerar desconfiança entre as pessoas.

A tarefa do médico é compreender os seus pacientes, aprendendo a controlar sua necessidade de fazer julgamento de valores e crenças pessoais. Os pacientes são com freqüência sensíveis a tudo o que o médico possa expressar por palavras, gestos, críticas e desaprovação. O respeito e a tolerância ajudam o médico a preservar a auto-estima do paciente.

Nas transações econômicas entre paciente e o médico, nem o paciente deve-se sentir financeiramente explorado, nem o médico deve deixar de receber seus honorários profissionais apropriados. No binômio médico-paciente, deve-se dar atenção às necessidades terapêuticas do paciente, sem interferência das necessidades e interesses humanos do médico.

A medicina do futuro promete ser tecnológica na sua apresentação, mas deve ter espaço garantido para que esta relação seja plena de confiança e de todo o sensorial do médico, finaliza Dra. Bernadete Cattete Blom.

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