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Doença de Creutzfeldt-Jakob: entenda a rara doença cerebral causada por príons

© Equipe Editorial Bibliomed

Neste artigo:

- 1. Introdução
- 2. O que são os príons?
- 3. Uma doença extremamente rara
- 4. Quais são os principais sintomas?
- 5. Como é feito o diagnóstico?
- 6. Existe tratamento estabelecido até o momento?
- 7. Existem novos tratamentos?
- 8. Referências

1. Introdução

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença neurológica extremamente rara, progressiva e fatal, que provoca uma deterioração muito rápida do funcionamento do cérebro. Embora seja pouco conhecida pela população, a doença desperta interesse por apresentar características bastante diferentes de outras formas de demência, principalmente pela rapidez com que os sintomas evoluem.

A DCJ pertence a um grupo de doenças chamadas encefalopatias espongiformes transmissíveis, também conhecidas como doenças priônicas. Elas podem ocorrer tanto em seres humanos quanto em animais.

2. O que são os príons?

Acredita-se que a doença de Creutzfeldt-Jakob seja causada por príons, agentes infecciosos incomuns porque, ao contrário de vírus e bactérias, não possuem material genético próprio. Um príon é essencialmente uma proteína que adquiriu uma forma anormal.

Quando essa proteína alterada entra em contato com proteínas normais presentes no cérebro, pode induzi-las a assumir também uma configuração anormal. Progressivamente, ocorre o acúmulo dessas proteínas e a lesão das células nervosas.

Ao microscópio, o tecido cerebral afetado pode apresentar pequenas cavidades que lhe conferem um aspecto semelhante ao de uma esponja. Daí vem a expressão "encefalopatia espongiforme".

3. Uma doença extremamente rara

A doença de Creutzfeldt-Jakob foi reconhecida pela primeira vez na década de 1920. Apesar de ocorrer em diferentes regiões do mundo, continua sendo muito rara.

A incidência anual estimada em muitos países é de aproximadamente 1 a 2 casos para cada 1 milhão de habitantes.

O risco aumenta com a idade, e a doença ocorre principalmente em pessoas com 55 anos ou mais. Isso não significa, entretanto, que a DCJ seja uma consequência normal do envelhecimento. Mesmo entre idosos, sua ocorrência permanece excepcional.

Existem diferentes formas da doença. Cerca de 85% dos casos são classificados como esporádicos. Nessa situação, a doença surge aparentemente ao acaso, sem histórico familiar e sem uma fonte conhecida de transmissão. Ainda não se sabe exatamente por que a proteína priônica normal passa a apresentar sua forma anormal nesses pacientes.

Entre 5% e 15% dos casos correspondem à forma familiar ou genética. Nesses pacientes, existem alterações hereditárias no gene responsável pela produção da proteína priônica, aumentando a possibilidade de desenvolvimento da doença.

Uma terceira forma, denominada iatrogênica, representa menos de 1% dos casos. Ela pode ocorrer quando há transmissão acidental de príons durante determinados procedimentos médicos ou por meio de produtos biológicos contaminados. Atualmente, esse tipo de transmissão é extremamente incomum devido às medidas de segurança adotadas nos serviços de saúde.

É importante ressaltar que a doença de Creutzfeldt-Jakob não é habitualmente transmitida pelo contato cotidiano com uma pessoa doente.

4. Quais são os principais sintomas?

Uma das características mais marcantes da DCJ é a rapidez de sua evolução. Enquanto outras doenças responsáveis por demência, como a doença de Alzheimer, geralmente progridem durante anos, a deterioração provocada pela DCJ pode ocorrer em poucos meses.

O principal sintoma é a demência rapidamente progressiva, com perda das capacidades de memória, raciocínio, orientação e realização das atividades habituais.
Também podem aparecer precocemente alterações neurológicas importantes, como dificuldade para caminhar e manter o equilíbrio, movimentos musculares involuntários e súbitos e alterações da visão.

À medida que a doença avança, a pessoa pode apresentar comprometimento cada vez maior da coordenação, da comunicação e da capacidade de realizar atividades básicas.

Depois do início dos sintomas, a evolução costuma ser muito rápida. Segundo o CDC, a mediana de tempo entre o aparecimento dos sintomas e um eventual desfecho fatal é de aproximadamente quatro a cinco meses.

5. Como é feito o diagnóstico?

Diagnosticar a doença de Creutzfeldt-Jakob pode ser um desafio, principalmente porque seus primeiros sintomas podem ser confundidos com os de outras doenças neurológicas.

Existem critérios médicos específicos para classificar os casos como possíveis, prováveis ou definitivos. Também existem critérios próprios para as formas familiares e para aquelas relacionadas a procedimentos médicos.

Durante a investigação, os médicos podem utilizar exames neurológicos e métodos complementares capazes de identificar alterações sugestivas da doença. Entretanto, a confirmação definitiva depende da demonstração das alterações características no tecido cerebral por meio de exames neuropatológicos e/ou imunodiagnósticos. Esse tecido pode ser obtido por biópsia cerebral ou, mais frequentemente, durante exame realizado após a morte.

Nos Estados Unidos, o CDC apoia um centro nacional especializado, ligado à Case Western Reserve University, destinado à vigilância e ao diagnóstico laboratorial avançado das doenças priônicas.

6. Existe tratamento estabelecido até o momento?

Atualmente, não existe tratamento regular capaz de curar a doença de Creutzfeldt-Jakob ou interromper definitivamente sua progressão. O atendimento é direcionado principalmente ao controle dos sintomas, ao conforto do paciente e ao suporte à família.

Como a deterioração neurológica pode ocorrer rapidamente, o acompanhamento por uma equipe multidisciplinar torna-se particularmente importante. Dependendo da fase da doença, podem ser necessários cuidados médicos, de enfermagem, fisioterapia, suporte nutricional e medidas paliativas.

Apesar de sua gravidade, é importante colocar o risco em perspectiva: a DCJ permanece extraordinariamente rara. Para a população em geral, não há motivo para considerar sintomas comuns de esquecimento ou dificuldades ocasionais de memória como indícios dessa doença.

O aspecto que mais chama a atenção dos médicos é a associação entre declínio cognitivo muito rápido e aparecimento de alterações neurológicas, especialmente dificuldades para caminhar, movimentos involuntários e problemas visuais. Nesses casos, uma investigação neurológica especializada permite diferenciar a DCJ de outras doenças, algumas delas potencialmente tratáveis.

7. Existem novos tratamentos?

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) continua sem um tratamento capaz de curar ou comprovadamente interromper sua evolução. Nos últimos anos, entretanto, surgiram estratégias que procuram atuar diretamente no mecanismo responsável pela doença, principalmente reduzindo a quantidade da proteína priônica normal (PrP) disponível no cérebro.

Os príons surgem quando essa proteína normal sofre uma alteração de sua estrutura e passa a estimular outras proteínas a adquirir a mesma forma anormal. Por isso, uma das estratégias consideradas mais promissoras é simplesmente fazer o cérebro produzir menos PrP. Quanto menor a quantidade dessa proteína, menor seria a “matéria-prima” disponível para a propagação dos príons.

Entre as tecnologias em desenvolvimento estão os oligonucleotídeos antisenso (ASOs). Essas pequenas moléculas interferem no RNA que contém as instruções para a produção da proteína priônica. Estudos realizados em animais demonstraram que a redução da PrP por ASOs pode retardar o aparecimento da doença e prolongar a sobrevivência, inclusive quando o tratamento é iniciado depois que alterações patológicas já começaram.

Essa estratégia levou ao desenvolvimento de tratamentos experimentais direcionados ao RNA, incluindo o ION717, atualmente estudado em pacientes com doenças priônicas. Entretanto, ainda não existe demonstração definitiva de que esse medicamento consiga retardar a progressão clínica da DCJ ou aumentar a sobrevida.

Outras possibilidades ainda predominantemente experimentais incluem RNA de interferência, anticorpos contra a proteína priônica, pequenas moléculas que dificultam sua conversão ou agregação e técnicas de terapia genética e edição gênica.

Assim, o principal avanço não é ainda a existência de uma cura, mas uma mudança de estratégia: os pesquisadores procuram atualmente impedir a formação e a propagação dos príons, em vez de apenas tratar os sintomas da doença.

8. Referências

  1. Baiardi S, et al. Human prion disease: molecular pathogenesis, and possible therapeutic targets and strategies. Expert Opin Ther Targets. 2023. PMID: 37334903.
  2. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Overview of Creutzfeldt-Jakob Disease (CJD).Atualizado em 21 de janeiro de 2026.
  3. Current genetic approaches for the treatment of prion diseases. 2026. PMID: 42259419. Revisão das estratégias de redução da expressão de PrP por ASOs, RNA de interferência e tecnologias CRISPR.
  4. Masone A, et al. Therapeutic targeting of cellular prion protein: toward the development of dual mechanism anti-prion compounds. Neural Regen Res. 2025;20(4):1009-1014. PMID: 38845221.
  5. Minikel EV, et al. Prion protein lowering is a disease-modifying therapy across prion disease stages, strains and endpoints. Nucleic Acids Res. 2020;48(19):10615-10631. PMID: 32776089.
  6. Pettinari A, Uliassi E, Bolognesi ML. New Therapeutic Modalities in Prion Diseases. Subcell Biochem.2025;112:39-64. PMID: 41004053.
  7. Raymond GJ, et al. Antisense oligonucleotides extend survival of prion-infected mice. JCI Insight.2019;4(16):e131175. PMID: 31361599.
  8. Vallabh SM, et al. Characterization of the Prion Protein Binding Properties of Antisense Oligonucleotides. Biomolecules. 2020;10(1):141. PMID: 31861275.

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