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O Uso Prolongado de Aspirina Pode Aumentar o Risco de Hemorragia do Tubo Digestivo?

Neste Artigo:

- Aspirina: Usos x Doses
- O Estudo
- Resultado
- Comentários
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"A aspirina tem diversos usos na prática médica, sendo utilizada principalmente devido ao seu efeito analgésico. Entretanto, nos últimos 20 anos, a droga tem sido utilizada com o intuito de se prevenir eventos cardiovasculares. Essa função da aspirina está relacionada com sua ação antiplaquetária. De fato, tem-se conseguido a prevenção de milhares de eventos, mas com um custo. A aspirina aumenta o risco de hemorragia do tubo digestivo. Tentou-se amenizar esse risco com a diminuição da dose do medicamento, o que não foi demonstrado em vários estudos. Assim sendo, a sua utilização nessas pessoas deverá ser feita ponderando o custo-benefício da prevenção e do risco de hemorragia do tubo digestivo".

Aspirina: Usos x Doses

A aspirina tem diversos usos terapêuticos. É utilizada como analgésico em vários problemas agudos como resfriados, dores de cabeça, infarto cardíaco e em doenças crônicas como artrites e inflamações musculares. A sua ação analgésica ocorre juntamente com sua ação antiplaquetária, sendo que essa última leva a uma diminuição da ação coagulante do sangue. Isso permite uma melhor "fluidez" do mesmo, mas ao mesmo tempo aumenta a chance de sangramentos indesejados.

Essa é a base do seu uso preventivo nas pessoas com problemas vasculares como aterosclerose e risco de derrame cerebral. Esses pacientes têm regiões dentro dos vasos sangüíneos onde há uma maior chance de serem formados trombos (aglomerados de sangue coagulado). Tais trombos podem se soltar e migrar através da circulação para diversos locais (cérebro, rins, intestinos) produzindo então, uma obstrução sangüínea e levando à falência funcional daquela região afetada. As pessoas com problemas vasculares são aquelas que têm doença das artérias do coração (coronárias), aquelas que já tiveram derrame cerebral transitório ou permanente, e aquelas que possuem um risco aumentado para eventos cardiovasculares como portadores de hipertensão arterial e de alterações no colesterol. Nos EUA, cerca de 50 milhões de pessoas têm utilizado a aspirina de forma preventiva nos últimos 20 anos.

Entretanto, um dos mais temidos efeitos colaterais dessa droga é a hemorragia. Já é bem documentado que tal risco de fato ocorre em doses maiores que 300mg por dia. Poucos estudos, no entanto, foram feitos buscando uma associação desse risco com doses de 100mg por dia (dose utilizada para prevenção de doenças vasculares). O uso de doses menores se tornou popular devido ao fato de se pensar que com essa diminuição, os efeitos colaterais diminuiriam sem alterar o efeito preventivo terapêutico.
Um trabalho comparando diversos estudos sobre o assunto foi realizado pelo Dr. Yoon Kong Loke e colaboradores, do Departamento de Farmacologia Clínica da Universidade de Oxford, Inglaterra. As perguntas a serem respondidas foram as seguintes: 1) há evidência de que o risco de hemorragia do tubo digestivo está substancialmente reduzido com a utilização de baixas doses de aspirina? 2) várias formas caras "modificadas" de aspirina têm sido desenvolvidas na tentativa de se reduzir tais efeitos colaterais. Quais as evidências de que isso realmente ocorre? Um resumo desse trabalho será exposto no texto abaixo.

O Estudo

Foram analisados trabalhos que utilizaram a aspirina por um mínimo de 12 meses, em dois grupos de pacientes separados aleatoriamente. Um grupo tomou a aspirina e o outro grupo, fez uso de placebo (comprimido de "farinha") ou de nenhum comprimido. Foram selecionados 24 trabalhos dentre 7.000 pesquisados, que se enquadravam nas especificações dos autores. Houve um total de 65.987 participantes, sendo que 74% eram homens de meia idade. As doses de aspirina variaram de 50-1500mg/dia. As indicações para o uso eram de prevenção em indivíduos saudáveis ou em indivíduos vítimas de derrames cerebrais. Em todos os pacientes, excluiu-se presença de úlcera péptica, hemorragia do tubo digestivo (HTD) prévia ou qualquer outra contra indicação para aspirina.

Resultados

Houve HTD em 2,47% dos pacientes que tomaram a aspirina e em 1,42% dos pacientes que fizeram uso de placebo ou não tomaram nenhum comprimido.
Dentre os estudos que utilizaram doses baixas de aspirina (50-162mg/dia), houve hemorragia em 2,30% daqueles que tomaram aspirina contra 1,45% que não tomaram. Mesmo com doses baixas, a aspirina esteve associada com um maior risco de HTD.  O uso de formulações ditas "modificadas" não altera o risco acima exposto.

Comentários

Cerca de uma em cada 100 pessoas que fizerem uso de aspirina em baixas doses durante 28 meses de tratamento terão um quadro de HTD. Dessa forma, médicos e pacientes deverão avaliar o custo benefício de se utilizar tal medicação. Isso significa que será importante o seu uso caso o risco de ocorrer algum problema vascular for maior e/ou mais sério que o risco de ocorrer uma HTD.

Na prevenção secundária do derrame cerebral, ou seja, naqueles pacientes que já tiveram um derrame cerebral e que estão prevenindo um próximo evento, o número de pessoas tratadas por ano para que um derrame seja prevenido é de 106 pessoas. Isso significa que se a aspirina fosse utilizada em pacientes com riscos similares dos acima, pelo menos dois derrames poderiam ser evitados com o custo de uma hemorragia do tubo digestivo.

Na prevenção do infarto cardíaco, por outro lado, o número tratado para que houvesse a prevenção de um evento seria 555 pessoas, sendo que em pacientes com hipertensão arterial tal número aumenta para 794 pessoas. Assim, a prevenção de um infarto cardíaco levaria à hemorragia do tubo digestivo em duas a três pessoas. Como existem poucas mortes após uma HTD (12%), em comparação com um infarto cardíaco, tal custo benefício parece ser interessante. Naqueles pacientes que possuem um risco cardiovascular menor, a probabilidade de HTD é maior que a prevenção de um evento cardíaco, o que deve ser avaliado pelo médico e paciente.

Não se sabe ainda qual seria a menor dose de aspirina capaz de efetuar a prevenção cardiovascular, para que o risco de HTD fosse o menor possível. A utilização de formulações diferentes, como já dito acima, não teve relação com a diminuição da HTD, entretanto, pode ser que tais medicamentos levem a uma melhora dos sintomas gastrointestinais como náuseas e vômitos.

Fonte: BMJ 2000; 321:1183-1187.

Copyright © 2001 eHealth Latin America               05 de Janeiro de 2001




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