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Sadomasoquismo: Presente Também Fora da Vida Sexual

Filmes como Crash, Corpo em Evidência e Lua de Fel, e personagens como a Mulher Gato e a recente e brasileiríssima Tiazinha, trouxeram à tona a já secular discussão sobre sadomasoquismo. Por alguns tido como um distúrbio, por outros como uma opção sexual, fica evidente a polêmica contida e a dificuldade em se atribuir uma opinião conclusiva sobre a questão. Rotulado pela ciência como disfunção sexual, o tema tem, na verdade, implicações muito mais amplas do que os prazeres da cama, como é do senso comum pensar.

De acordo com o Prof. Dr. Armando Colognese Júnior, docente do Curso de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, entrevistado sobre o tema, a perversão é algo do caráter, transcende, portanto, as manifestações sexuais, é observada em toda a vida da pessoa, em diversos momentos sociais. Logo, “o diagnóstico de masoquismo não é dado em função dos comportamentos sexuais da pessoa, mas, levando-se em conta todo o conjunto de ações e relações do indivíduo. Devemos lembrar que, como disse Freud, “são elementos que fazem parte do desenvolvimento humano”.

A fantasia é o poder

O tema central da fantasia masoquista, ao contrário do que possa parecer, não é a violência explícita. O que está em jogo são questões de poder, de domínio, utilizado na obtenção do prazer, quer seja sexual ou em outros relacionamentos sociais. Um exemplo clássico é o das pessoas que, no trabalho, exercem uma relação de poder e humilhação com seus subordinados, com a contrapartida daqueles que se submetem à ordens aviltantes e, inclusive, só se tornam produtivos quando sob exacerbada pressão. Em certos casos, aquilo que não é possível de ser executado com seus parceiros sexuais, acaba sendo levado para outros setores da vida.

Nas palavras do psicanalista, evidencia-se o importante aspecto de que “não há escolha alguma envolvida no comportamento (sexual) sadomasoquista”. Para o professor, a primeira ênfase, ao se tratar do assunto, deve ser dada ao esclarecimento do conceito de doença: “um conflito que causa dor física ou psíquica e que tenha caráter de exclusividade ou freqüência predominante”. Assim, ao se falar de comportamento sadomasoquista, ele afasta a idéia de que há uma escolha da pessoa por aquela prática sexual. Conclui que a pessoa é impulsionada pelo caráter de exclusividade para este comportamento no que diz respeito à obtenção de prazer.

Para a Psicanálise, a sexualidade humana é da ordem do pulsional, isto é, não é um comportamento instintivo, ou seja, biológico, fixo e rígido. A sexualidade humana pode encontrar diferentes formas de satisfação, decorrentes das famosas zonas erógenas. Assim, as pessoas podem encontrar satisfação na realização de diversas práticas sexuais, desde um beijo, do olhar e ser olhado, até uma relação de dominação, ou as relações sexuais vaginais, anais, etc. Tudo isso faz parte da sexualidade humana adulta.

O que diferencia o sadomasoquismo da pessoa normal é a sua fixação

Para Armando, o que ocorre - e diferencia - o sadomasoquista é uma fixação: “um aspecto prazeroso da sexualidade infantil que permanece como única fonte de prazer na vida adulta”. Assim, as fantasias diversas (por exemplo, todas as preliminares de uma relação sexual adulta) não podem garantir o prazer para a pessoa. O sadomasoquista depende exclusivamente daquela forma de relação para se satisfazer.

Para o psicanalista, o sadomasoquismo, assim como o homossexualismo, só vai ser entendido pela psicanálise como doença quando houver conflito: um homossexual só é doente quando não aceita sua homossexualidade. Quando o parceiro não está conscientemente aceitando o jogo sadomasoquista é que se estabelece o conflito e se diagnostica como doença. Nas palavras de Armando, “quando o parceiro do sádico é um masoquista, não há obtenção do prazer. O parceiro precisa resistir, pois é na agressão, na relação de poder, que o sádico obtém prazer no jogo sexual, ou em um relacionamento”.

Na visão psicanalítica, não há um sádico e um masoquista. Na realidade, as pessoas apresentam uma intensificação de uma das manifestações, mas é um par que se complementa. O sádico vai fazer uma projeção da sua culpa no outro e passa a puni-lo, enquanto o masoquista assume a culpa em si e procura um algoz para puni-lo.

“O sujeito pressupõe que cometeu algum crime, não o define, mas precisa ser punido”, explica o Dr. Armando, que, no seu texto O conceito de Sadismo e Masoquismo na Obra de Freud mostra como esta culpa, expressa pelo sadomasoquista, pode relacionar-se com (um) complexo de Édipo mal resolvido, elaborado de tal forma que o sujeito sente prazer sexual ao punir-se pela culpa do desejo de ocupar o lugar de seu pai ou sua mãe.

Na verdade, aponta o Dr. Armando, Freud, a partir da evolução dos seus textos, faz novas reformulações e questionamentos e mantém a dúvida de como é possível o ser humano sentir prazer através da dor, principalmente partindo-se do princípio de que o conceito de prazer passa exatamente pela ausência de dor. Somente muito mais tarde, em sua obra, Freud fará a relação do sadomasoquismo com outros conceitos, como o de pulsão de morte e do Complexo de Édipo.

A vida de um sadomasoquista é restrita e limitada, e isto leva ao sofrimento. É essa a característica que define a perversão. “Há um desejo de exclusividade de amor do outro” explica o professor, que acrescenta: “um sujeito com dificuldades é aquele que não é capaz de lidar com suas culpas, pois não sabe distinguir a sua própria agressividade, da sua destrutividade”.

Nos estados confusionais psicóticos, ao estar confuso, não se sabe o que é certo e o que é errado, portanto, não se pode sentir culpa. Na paranóia, o que deveria ser culpa por agressão passa a ser o sentimento de estar sendo perseguido por um agressor. Já no caso da perversão, onde se enquadra o sadomasoquismo, o que deveria ser dor pela culpa, torna-se prazer.

Origem do termo

Explicando a origem do nome sadomasoquismo, o psicólogo Fernando Falabella Tavares de Lima, no trabalho de conclusão de curso da Faculdade de Psicologia da PUC-SP - 1994, Sexualidade e Drogadição, relata: “O termo vem da combinação dos nomes de marquês de Sade e do cavaleiro Leopold Van Sacher-Masoch. Sade interessava-se pela dominação e Sacher-Masoch desejava ser maltratado. O sádico possui excitações sexuais pela idéia de domínio, e o masoquista pela idéia de ser humilhado”.

Reforçando-se a tese psicanalítica, apresentada Prof. Armando, o trabalho, acima citado, aponta: “Segundo Storr (1964), os sadomasoquistas que procuram ajuda psicológica são aqueles que estão infelizes com o próprio comportamento; pois, há muito deles que descobrem o parceiro ideal e não querem alterar suas condutas”.

Por fim, Fernando conclui “é raro que os sadomasoquistas apliquem ou recebam graves danos físicos, embora, às vezes, isto possa ocorrer. A fantasia é a alma do sadomasoquismo, isto é, as humilhantes flagelações geralmente não são tão violentas quanto se pensa. Há muitas relações que não incluem dor física, que são sadomasoquistas. Muitas vezes as humilhações são verbais: comportamentos verbais agressivos, de dominação, são a forma sádica do relacionamento entre estas pessoas”.

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