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Artigos de saúde

Prevenindo as Mordeduras de Cão em Crianças: A Importância de Um Programa Educacional

Os animais que mais comumente atacam os seres humanos através de mordeduras são os cães e gatos. Os ataques de cães em crianças são muito freqüentes sendo um grande responsável pela procura dos pais aos serviços de pronto socorro.

Para se ter uma idéia do problema, são estimados 740.000 casos nos EUA por ano que chegam a procurar cuidados médicos, sendo que uma boa parte são crianças. Dados provenientes de um hospital do sul da Austrália mostraram ser o ataque por cães a quarta maior causa de procura de crianças naquele hospital, ficando atrás de acidentes no playground, acidentes de bicicleta e por veículos motorizados. A gravidade das lesões produzidas é bem variável uma vez que depende da região acometida, da raça do cão, das circunstâncias do contato animal-criança.

Em um estudo realizado na cidade norte americana de El Paso - Texas percebeu-se que na maioria das mordeduras por gatos, os mesmos estavam soltos ao contrário dos cães, que na maioria das vezes se encontravam encoleirados. Percebeu-se também terem sido as crianças o grupo mais afetado por ataques caninos enquanto que os adultos sofreram mais ataques por felinos. A localização das lesões também foi diferente, sendo que nas crianças atacadas por cães, as lesões se distribuíram com maior freqüência pelo tórax e face (localizações mais graves) enquanto que nos adultos atacados por gatos, as lesões se localizavam nas extremidades dos membros. Além da extensão das lesões em si, é importante lembrar do risco de infecções que as mesmas podem causar sendo o mesmo maior nas mordeduras de gato. Isso, sem contar no risco de se contrair a raiva, doença que uma vez adquirida, não pode ser tratada. Programas de prevenção têm procurado o controle de raças consideradas perigosas (por exemplo, em um estudo na Austrália, 75% dos ataques foram feitos por apenas cinco raças das 160 existentes), educação dos donos para manter os animais na coleira assim como o treinamento dos mesmos. Entretanto, não tem havido nenhuma intervenção no que diz respeito à educação das pessoas em como não ser atacada por um cachorro.

Simon Chapman do Departamento de Saúde Pública e Medicina Comunitária da Universidade de Sydney, juntamente com sua equipe procuraram através do programa "Prevent-a-Bite" (Prevenindo uma Mordedura) intervir no comportamento de crianças da escola primária quando em contato com cães. Os resultados deste estudo foram publicados em número da revista médica British Medical Journal de junho de 2000.

O Estudo

Foram selecionadas aleatoriamente oito escolas de ensino primário da área metropolitana de Sydney, Austrália. Elas foram então dividas também aleatoriamente em dois grupos: o grupo que receberia a intervenção educativa e o grupo que não a receberia. Duas classes em cada escola foram utilizadas no trabalho levando a um total de 346 crianças de 7-8 anos de idade.

A intervenção educativa consistiu-se de uma aula de 30 minutos lecionada por um adestrador de cães. Ele demonstrou juntamente com seu cão, o que se pode e o que não se deve fazer diante de um cachorro desconhecido. Mostrou também, como diferenciar um cão amigo de um cão nervoso ou assustado, como se aproximar dos cães quando se quer acariciá-los ou brincar com eles. Assim, as crianças praticaram a maneira correta de acariciar um cão: pedindo permissão, abordando vagarosamente, evitando contato olho a olho, acariciando-os debaixo do queixo e no peito, distanciando do cão calmamente. Foram também ensinados os tipos de postura quando fossem surpreendidos ou derrubados por um cachorro, e que não deveriam incomodar mesmo um cão dócil em situações específicas quais sejam, enquanto estiver dormindo, alimentando, amarrados ou dentro de carros.

Após 7 a 10 dias depois do programa, essas crianças foram colocadas brincando no pátio da escola e, sem previamente saberem, foi deixado um cão da raça Labrador com seu dono disfarçado de vendedor no mesmo pátio. Tudo foi gravado por uma câmera escondida por 10 minutos. As crianças das escolas controles, também tiveram a mesma oportunidade sem no entanto, terem tido a aula previamente citada.

O número de crianças que não seguiu o comportamento ensinado foi conseguido através da avaliação do videotape por três pessoas diferentes sendo que uma delas não sabia qual grupo tinha recebido as instruções e qual grupo não as tinha recebido. Só foram computados aqueles casos em que os três avaliadores concordaram.

As crianças que receberam a intervenção demonstraram uma precaução apreciavelmente maior que as outras crianças. A maioria das crianças do grupo controle (79%) abordaram o cão sem ao menos hesitarem e ao mesmo tempo tentaram excitá-lo enquanto somente 9% das crianças que receberam a intervenção abordaram o cachorro mas mesmo assim, somente após um período de avaliação cuidadosa.

Comentários

O programa acima demonstrou um aumento importante do comportamento cuidadoso das crianças diante de um cachorro desconhecido, pelo menos a curto prazo. Pesquisas posteriores serão necessárias para avaliar a durabilidade desse padrão de comportamento. Outro fator importante é a observação dessas situações fora da escola, onde na maioria das vezes, ocorrem tais acidentes.

A educação de pais para não adquirirem cães enquanto seus filhos forem menores que cinco anos seria outra forma de prevenção visto que tem sido demonstrado que crianças pequenas e cachorros não combinam, especialmente algumas raças específicas como Pastor Alemão, Chow Chow, Bull Terrier, Pit Bull, Doberman e Rottweiler que foram responsáveis por vários ataques repentinos.

Outra opção seria a cobrança de um seguro sobre aqueles donos de raças consideradas mais perigosas. Tal seguro agiria como uma forma de fazer com os compradores pensassem melhor antes de adquirir uma raça perigosa e também como uma verba utilizável em diversos programas de conscientização pública sobre o assunto.

Fonte: BMJ 2000;320:1512-1513 (3 June)

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