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Artigos de saúde

Efeitos Benéficos dos Contraceptivos Orais a Curto e Longo Prazo

Dr. Freddy Febres Balestrini*, Br. Carolina Febres Alizo**.

*Coordenador na Venezuela do "Centro Latinoamericano Salud y Mujer" (CELSAM). Chefe do serviço de Saúde reprodutiva da Maternidade Concepción Palácios.
** Estudante de Medicina, Escola Luis Razetti. Universidade Central da Venezuela.

Desde a introdução do contraceptivo oral monofásico Enovid (mestranol e noretindrona) por Gregory Pincus em 1960 (1), deu-se um dos passos mais importantes na medicina do século XX. A partir desse momento, permitiu-se pela primeira vez que o ser humano desfrutasse relações sexuais a qualquer momento do ciclo, sem medo de uma gravidez não planejada, podendo-se planejar a descendência de forma responsável para consigo mesmo e para com a sociedade.

O balanço do uso de contraceptivos orais (CCO) é amplamente positivo desde sua introdução, quando evitou a gravidez não desejada e a alta taxa de morbidade e mortalidade relacionadas. Contudo, este problema ainda continua sendo muito grave nos países latino-americanos, onde a mortalidade materna é dramaticamente maior que nos países desenvolvidos, variando entre 100 a 1.000 em alguns países latino-americanos contra 7 a 15 por 100.000 nascimentos vivos nos países desenvolvidos (2). Este grave problema se deve, em parte, à carência de programas de governo para investimento em capital humano.

Às portas do novo século e depois de se gastar grandes somas de dinheiro, ainda temos um nível educacional crítico e uma oferta insuficiente de serviços relacionados à saúde reprodutiva, que em geral são de péssima qualidade. Este problema traduz-se no fato de que aproximadamente 48% das mulheres em idade reprodutiva na América Latina não usam nenhum método contraceptivo, a predominância do uso de CCO é menor que 10%, enquanto na Europa esse número chega a 33%.

O aborto induzido em condições insalubres é o quarto método contraceptivo de preferência para as mulheres latino-americanas, calculando-se em torno de 6 milhões de abortos anuais, os quais são responsáveis por 6 mil mortes de mulheres jovens anualmente (2). Estes países têm um imenso gasto em saúde pública que supera várias vezes o custo de um programa coerente de saúde reprodutiva. Outro aspecto importante da gravidez não desejada, que é de cerca de 50% dos casos na América Latina (2), reside no fato de que além dos problemas médicos também há o aporte à sociedade de crianças maltratadas e abandonadas, muitas das quais irão aumentar as cifras da delinqüência, da prostituição, miséria e gravidez precoce que leva a frustração do projeto de vida de muitas de nossas adolescentes.

O uso excessivo dos CCO também produziu alguns efeitos colaterais, contudo, estes têm diminuído progressivamente com a diminuição da dose dos componentes estrogênicos e progestacionais dos CCO e com a incorporação de novos progestágenos com menor ação androgênica e maior ação progestacional.

Os CCO também demonstraram ter alguns efeitos benéficos diferentes de sua ação como contraceptivos, os quais estão resumidos a seguir:

1) Diminuição do risco de câncer de ovário: esta é a quarta causa de morte por câncer em mulheres nos países desenvolvidos e a quinta causa em países em desenvolvimento. Geralmente, quando diagnosticado, encontra-se já em estágios avançados levando a uma sobrevida precária (3). O uso de CCO por 4 anos reduz o risco em 40%, por 8 anos em 53% e, por mais de 12 anos, em 60%. Este efeito protetor mantém-se por até 15 anos após a pessoa ter parado de usar os CCO. Demonstrou-se também que protege em até 50% (4) contra o aparecimento de câncer de ovário hereditário em pacientes com marcadores genéticos positivos (BRCA1 e BRCA2).

2) Diminuição do risco de câncer de endométrio: os CCO diminuem de forma significativa sua incidência. Este efeito está relacionado à duração do uso do CCO. Usando-se por 4 anos, o risco relativo (RR) de aparição de um câncer de endométrio é de 0,44, por 8 anos o RR é de 0,33 e, por mais de 12 anos o RR é de 0,28 (5), este efeito mantém-se mais de 20 anos depois que a pessoa para de usar (5-7).

3) Diminuição da miomatose uterina: diferentemente do que se pensava anteriormente, os CCO combinados mostram efeitos benéficos retardando o crescimento e a aparição dos miomas uterinos (6,8). Este efeito protetor pode ser utilizado em mulheres com fatores de risco que desejem ter filhos tardiamente. Em mulheres peri-menopáusicas com miomatose uterina pode-se reduzir o fluxo sangüíneo sem aumentar a miomatose (9).

4) Diminuição da incidência de doença inflamatória pélvica (DIP): tem-se descrito que nas usuárias de CCO ocorre uma diminuição da incidência de doenças transmitidas sexualmente (DST) no trato genital inferior. Devido ao fato desse efeito ser parcial e diante de um risco maior de DST deve-se usar sempre um método de barreira mais confiável como o preservativo (7,10,11).

5) Diminuição da incidência de cisto funcional de ovário: o uso de CCO devido ao seu efeito sobre o eixo hipotálamo-hipófise na secreção de gonadotrofinas diminui a estimulação ovariana produzida por estes hormônios endógenos diminuindo assim, a freqüência de cistos funcionais (12,13). Este efeito supressor parece ser mais acentuado quando se está fazendo uso de contraceptivos de maior dosagem de estrógenos.

6) Controle do ciclo menstrual: a inibição da ovulação e o controle da função endometrial permitem aos CCO regularem a periodicidade do endométrio e diminuírem a sua proliferação, melhorando o sangramento uterino disfuncional, a dismenorréia e diminuindo a quantidade de fluxo menstrual em até 60%. Estes mecanismos demonstram um efeito benéfico na Síndrome pré-menstrual e são úteis nos países subdesenvolvidos onde a anemia nutricional é epidêmica em muitas áreas (14,15).

7) Diminuição da incidência de doenças da glândula mamária: nas usuárias de CCO, a incidência da condição fibrocística da mama e de fibroadenomas mamários podem ser reduzidas entre 34% e 65% respectivamente (1,2). Estudos epidemiológicos realizados nos Estados Unidos demonstraram a diminuição da incidência de câncer mamário em mulheres que fizeram uso de contraceptivos por mais de 8 anos (16).

8) Diminuição da incidência de Artrite Reumatóide: alguns trabalhos relatam um efeito protetor de até 60% apesar de existirem dados contraditórios e da suspeita de que esse efeito protetor possa ser mais evidente apenas durante o uso dos CCO (6,7,17,18).

9) Diminuição da incidência de osteoporose: apesar dos dados sobre mulheres normo-estrogênicas, com ciclos menstruais regulares, serem contraditórios, em pacientes com disfunções ovarianas acompanhadas de hipoestrogenismo parcial ou total, os CCO possuem um efeito protetor importante sobre a diminuição da massa óssea (6,7,8,19). Contudo, um estudo controlado demonstrou que as usuárias de CCO têm 25% menos casos de fratura de bacia (20).

10) Benefícios para as atletas: nas mulheres com atividade física de competição é freqüente o retardamento puberal, a insuficiência lútea e a oligomenorréia e amenorréia acompanhada de hipoestrogenismo. Nestes casos, o uso de CCO além de permitir a manipulação do ciclo menstrual voluntariamente, também pode prevenir a síndrome pré-menstrual e manter a massa óssea sem prejudicar o desempenho físico (21).

11) Acne e hirsutismo: os CCO, pelo efeito que têm sobre o controle da função ovariana ao atuarem no eixo hipotálamo-hipófise e pela sua ação esteroidogênica direta sobre o folículo piloso sebáceo, desempenham um papel muito importante na prevenção e no tratamento destas patologias. A adição de alguns progestágenos anti-androgênicos (acetato de Ciproterona, norgestimato, etc) pode potencializar ainda mais este efeito (6,7,8,22).

Referências Bibliográficas:

1) Green L, Shirley M. The curious history of contraception. Ebury Press, London. 1970, p 86.

2) Maternal mortality, in The FIGO Manual of Human Reproduction. Edited: Fathala M, Rosenfield A, Indriso C, Dilup K. Parthenon Publishing Group, New York 1990; pp:78-99.

3) Gynecological and breast cancer screening and early diagnosis. , in The FIGO Manual of Human Reproduction. Edited: Fathala M, Rosenfield A, Indriso C, Dilup K. Parthenon Publishing Group, New York 1990; pp:179-197.

4) Berchuck A, Schildkraud J. Oral contraceptive pills. Prevention of ovarian cancer and others benefits. N. C. Med J 1997;58: 404-407.

5) Schlesselman JJ. Risk of endometrial cancer in relation to use of oral contraceptive. A practitioner ´s guide to meta-analisis. Human Reproduction 1997; 12:1851-1863.

6) Edwards RG, Beard HK, Bradshaw JP. Balancing risk and benefits of oral contraception. Hum Reprod 1997;12:2339-2340.

7) Anticonceptivos Orales. Network en español. Family Health International 1996;16:4-8.

8) Drife J. Benefits and Risk of oral contraceptive. Adv Contract 1990;6 suppl:15-25.

9) Friedman AJ, Thomas PP. Does low-dose oral contraceptive use affect uterine size or menstrual flow in postmenopausal women with leiomiomas?. Obstet Gynecol 1995;85:631-635.

10) . Ness RB, Keder LM, Soper DE, Amortegui AJ, Gluck Oral contraception and the recognition of endometritis. Am J Obstet Gynecol 1997;176: 580-585.

11) Rosenfield WD, Basson JJ, Role of hormonal contraceptive in Prevention of Pregnancy and Sexually Transmited Diseases. Adolesc Med 1992;3: 207-222.

12) Chiffarino F, Parazzini F, La Vecchia C, Ricci E, Crosignani PG. Oral contraceptive use and benign gynecologic conditions. A review. Contraception 1998;57:11-18.

13) Huezo CM. Current reversible contraceptive methods: A global perspective. Int J Gynaecol Obstet 1998;62:1S-15S.

14) Tiemstra JD, Patel K.. Hormonal therapy in the management of premenstral syndrome. J Am Board Fam Pract 1998;11:378-381.

15) Salak PJ. Oral contraceptives: Therapeutic uses and quality of life benefits-case presentation. Contraception 1999;59:35S-38S.

16) Schlesselman JJ. Net effect of oral contraceptive use on the risk of cancer in women in the United States. Obstet Gynecol 1995;85:793-801

17) Brennan P, Bankhead C, Silman A, Symmons D. Oral contraceptive and rheumatoid arthritis: result from a primary case-based incident case-control study. Semin Arthritis Rheum 1997;26:817-823.

18) Allebeck P, Ahlbom A, Ljungtrom K, Allander E. Do oral contraceptives reduce the incidence of rheumatoid arthritis? A pilot study using Stockholm county medical information system. Scand J Rheumatol 1984;13:140-6.

19) Kaunitz AM. Oral contraceptive health benefits: Perception versus reality. Contraception. 1999;59:29S-33S.

20) Michaelsson K, Baron JA, Farahmand BY, Persson I, Ljunghall S. Oral-contraceptive use and risk of hip fracture: a case-control study. Lancet 1999;363:1481-1484.

21) Bennell K, White S, Crossley K. The oral contraceptive pill: a revolution for sportwomen? Br J Sports Med 1999;33:231-238. Thorneycroft IH. Effect of low-dose oral contraceptive on androgenic markers and acne. Contraception 1999;60:255-62.

Copyright CELSAM (Centro Latinoamericano Salud y Mujer)



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