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Entrevista com o Psicólogo e Psicanalista, Fernando Falabella Tavares de Lima

Entrevista com o Psicólogo e Psicanalista, Fernando Falabella Tavares de Lima, do IBEAC (Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário - Queiroz Filho) e do NETPSI (Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia)

Nesta Entrevista:

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BoaSaúde: Qual é a sua visão sobre a AIDS hoje?

Psic. Fernando:
Falar de AIDS não pode ser falar sobre opiniões pessoais, esse momento já passou. Não há como negar que a AIDS está presente, de uma forma ou de outra, na vida, no imaginário de todas as pessoas. Estamos falando de uma doença que não é mais novidade para ninguém, embora ainda existam muitas questões a serem pensadas e elaboradas sobre o tema, como as campanhas preventivas e a maior adesão dos pacientes ao tratamento medicamentoso. Ela é uma doença séria, uma questão de saúde pública, que envolve, direta ou indiretamente, toda a população do Brasil, não apenas a população sexualmente ativa. Há indícios de melhora em alguns setores, provados pelos próprios números dos boletins epidemiológicos, do Ministério da Saúde. Contudo, há muito o que fazer, por exemplo, pelas mulheres que são o grande foco da doença, neste momento. Não há grandes novidades, as formas de transmissão são as mesmas, a saber, sangüínea, sexual e vertical. O tema exige a maior seriedade por parte de todos.

BoaSaúde: Quais as perspectivas para o futuro?

Psic. Fernando:
As perspectivas são boas. Não são ótimas, como se tentou dizer, há algum tempo. Acredito que há muito o que ser trabalhado e desenvolvido. Tanto do ponto de vista do tratamento da doença, como em relação às campanhas preventivas. Mas, há muitos ganhos nessa luta, durante todos esses anos de trabalho. A AIDS veio para desenvolver o senso de cidadania e de luta pelos direitos de muitas pessoas. Há belíssimos trabalhos sendo realizados por todo o País, contando com a participação de organizações não governamentais, como, por exemplo, o IBEAC, o GIV, a Casa Vida, a APTA (Associação para Prevenção e Tratamento da AIDS), o GAPA (Grupo de Apoio e Prevenção à AIDS), entre outros. Avaliando-se desse ponto de vista, o Brasil está bem servido em relação aos trabalhos, mas há muito o que se fazer. Repito, as perspectivas são boas, mas não é um jogo ganho.

BoaSaúde: Na sua opinião, a tendência é realmente chegar-se à cura?

Psic. Fernando:
O desejo de todos que estão preocupados com relação à AIDS, é que os pesquisadores possam chegar à cura. Na minha opinião, isso ainda está distante de ocorrer. Mas, há muitos avanços em relação aos tratamentos a serem apontados. Pode-se dizer que a AIDS será uma doença crônica, ou seja, as pessoas já estão, cada vez mais, vivendo com o HIV. A perspectiva não é mais de morte, como nos anos 80. Atualmente, há belas perspectivas de sobrevida para os portadores do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), em função dos avanços das medicações. Vale ressaltar que não é um mar de rosas, ou seja, o próprio tratamento medicamentoso é difícil, exige muita seriedade, tanto por parte dos médicos, como principalmente, do paciente. Este deve ser muito responsável, pois terá uma rotina de vida extremamente regrada, que deve ser seguida. Mas, em uma palavra, não devemos pensar demais na cura e pararmos de consolidar os avanços que já estão sendo alcançados e, sobretudo, continuar lutando pela questão da saúde. Há que se ter bastante esperança.

BoaSaúde: Como lidar com essa esperança de cura junto aos doentes de AIDS e suas famílias?

Psic. Fernando:
O paciente e a família devem saber que a AIDS está num outro momento. Não estamos mais lutando com uma doença de morte eminente. Há pessoas que vivem quinze anos com o HIV. Quem, entre nós, sabe se estará vivo daqui a tanto tempo? Pois é, a AIDS é uma doença séria, mas há que se ter muita esperança. Pode-se viver bem, com a AIDS. Devemos é combater o preconceito, a discriminação, a desinformação, etc. Do ponto de vista psíquico, nem resta dúvida, o paciente que possui esperança e vontade de viver, está muito mais fortalecido na luta cotidiana frente às dificuldades da doença.

BoaSaúde: A perspectiva de cura, divulgada amplamente pela imprensa, vide capa da revista Veja, alguns meses atrás, pode levar a população a descuidar-se da prevenção?

Psic. Fernando:
Agora você está tocando num ponto muito importante. Devemos nos perguntar qual é o papel da imprensa. Há muitas meias verdades e muito sensacionalismo sendo divulgado. Por vezes, uma manchete mal formulada pode interferir muito negativamente para os pacientes. Isso vale, tanto para a mídia escrita, quanto para a televisão e, também, para as campanhas publicitárias.

A prevenção é um fator fundamental para que possamos ter um futuro razoável em relação aos números da doença. Jamais se poderia deixar de lado a prevenção em função de manchetes, excessivamente animadoras, eu diria que até mesmo, maníacas. Não há cura nenhuma, deve-se deixar isso bastante claro. O quadro atual não é dos piores, no Brasil, mas em termos gerais, no mundo, a AIDS ainda tem muito o que evoluir, é só passarmos a avaliar os números terríveis da África. É algo típico dos brasileiros, nós achamos que por estarmos trabalhando a questão da AIDS há muito tempo, os resultados são certos, a vitória está assegurada. Não é nada disso. A prevenção não pode ser abandonada, pelo contrário, ela deve ser é muito difundida. Deve passar a fazer parte do dia-a-dia de todas as pessoas, dentro das empresas, das escolas, das associações, das igrejas, dos sindicatos, etc.

BoaSaúde: De que forma a AIDS provocou mudanças no comportamento das pessoas? Em especial, em relação às suas relações sexuais, fidelidade, e desconfiança?

Psic. Fernando:
Num primeiro momento, instaurou-se um verdadeiro pânico. Todos achavam que iriam ser contaminados. Mas, não foi assim. Hoje, as pessoas deveriam saber que se pode praticar sexo à vontade, desde que com muita responsabilidade. O que não é possível, em hipótese alguma, é a prática sexual sem proteção. Estou falando do preservativo. Ele deve ser utilizado em todas as relações sexuais, seja ela vaginal, anal, ou oral. E também não interessa se a relação é heterossexual ou homossexual.

Atualmente, o grande problema são os casais monogâmicos, os dito fiéis. Na verdade, as mulheres com relacionamentos estáveis deixam de exigir o preservativo e assim, estão se contaminando bastante. Este é o grande problema do Brasil, no ano 2000.

A fidelidade é importante e pode proteger. Contudo, devemos lembrar que ela é uma via de mão dupla, isto é, as duas pessoas devem ser fiéis. E quem pode garantir que o parceiro é totalmente fiel? Bem, além da fidelidade, há o comportamento passado da pessoa. Isso também não pode ser esquecido. As pessoas podem estar contaminadas e não saber. Não há como deixar de se preocupar com essa questão. Infelizmente, a fidelidade vem se mostrando insuficiente. A sexualidade é muito complexa, envolve muitas emoções, não há como julgar as pessoas, avaliar, para se sentir seguro. A única saída é o uso do preservativo em todas as relações sexuais.

BoaSaúde: Que aspectos psicológicos estão envolvidos na prevenção à AIDS?

Psic. Fernando:
Agora sim, devemos falar das defesas egóicas, como por exemplo a onipotência. A prevenção é algo que deve se tornar cotidiano. Como eu disse, ela deve ser feita dentro dos ambientes de trabalho, dentro das escolas. É certo que a informação não livra ninguém da contaminação. Estar informado sobre as formas de transmissão, sobre os meios de prevenção, é o primeiro passo. Mas, como a AIDS está relacionada a um tema tão conflitivo como o sexo, as pessoas tendem a usar as suas defesas, achar que com elas isso nunca vai acontecer, que estão fora de perigo. Faz anos que não há mais grupos de risco. Hoje, todos podem se contaminar, mas as pessoas ainda têm a idéia de que com elas isso não ocorrerá. Portanto, defesas como a negação, a onipotência, estão sempre presentes, quando falamos de comportamentos sexuais. Essas defesas devem ser avaliadas e "dribladas" pelos trabalhos de prevenção. Deve-se saber que para que uma pessoa mude seus comportamentos e deixe de se colocar em risco, há que se trabalhar os aspectos emocionais. Não basta dar informação.

BoaSaúde: A AIDS cresce especialmente entre mulheres heterossexuais casadas, como falar do uso de preservativos para esse público?

Psic. Fernando:
Com certeza falar é importante. Deve-se esclarecer as formas de contaminação, os riscos, etc. Mas, como eu havia dito, o mais importante são os trabalhos que possam lidar com o lado emocional, para que as dificuldades de negociação do uso de preservativo dentro do casal possam ser analisadas e superadas. A informação é o primeiro passo, mas trabalhos preventivos que abordem as questões de maneira vivencial, através de dinâmicas, jogos, são imprescindíveis. É isso que nós do IBEAC temos feito nesses últimos cinco anos. De nada adianta uma palestra ou um trabalho pontual. Os trabalhos devem ser constantes para que tenham êxito.

BoaSaúde: O senhor critica o "modelo do terror" adotado em muitas das campanhas de prevenção. Qual o modelo correto na sua opinião? O que gera mais e melhores resultados?

Psic. Fernando:
Certamente o medo não possui um efeito muito grande, pois as barreiras, erguidas pelas defesas psicológicas, entrarão em ação. Uma pessoa com medo está paralisada, mas não é alguém que esteja segura dos motivos, dos porquês. Assim, quando o medo diminuir, as pessoas voltam a apresentar os comportamentos arriscados. Acredito que a prevenção deve estar atrelada à educação. O trabalho deve ser feito, como já expliquei, no nível emocional, através de dinâmicas de grupo, de vivências pessoais. Para isso, deve-se utilizar todos os meios disponíveis, os jogos lúdicos, a análise de filmes e músicas, enfim, todos os recursos que possam auxiliar a pessoa a compreender os riscos e mudar os comportamentos. O trabalho preventivo deve ser esclarecedor, em linguagem fácil e clara, voltada diretamente para a população alvo, ou seja, a que será beneficiada. Não adianta nada usar uma linguagem erudita com crianças ou analfabetos. Os recursos devem ser criativos, os projetos preventivos devem ser elaborados analisando-se caso a caso. De nada adianta projetos prontos e bem redigidos, colocados para públicos diferentes. Os resultados não serão os desejados.

BoaSaúde: O Pe. Julio denuncia a ausência de campanhas de prevenção à AIDS dirigidas ao público infantil. De que forma se pode falar de AIDS para crianças?

Psic. Fernando:
Posso me tornar repetitivo, mas vale à pena repassar. As campanhas de prevenção e todos os projetos preventivos, devem estar sendo desenvolvidos de forma específica para uma população. Não há como a mesma campanha preventiva abordar, por exemplo, as mulheres e os adolescentes.

No caso das crianças, do ponto de vista da prevenção, ainda estamos engatinhando. Acredito que os trabalhos devam ser feitos através de dinâmicas de grupo, iniciando-se a partir das demandas e das necessidades das crianças. Isso é muito importante: não se pode querer montar o projeto, ou a campanha, sem ouvi-las. Os temas abordados, assim como a forma, devem ser respeitosos às capacidades e necessidades da faixa etária a que se quer atingir. Campanhas pela televisão, por exemplo, não podem querer tratar da mesma maneira a criança de seis e a de dez anos. As compreensões, as dúvidas e as vivências são diferentes. Crianças gostam de brincar e já se sabe, faz muito tempo, que o brincar é simbólico, é uma forma de elaborar e superar conflitos psíquicos. Assim, creio que a melhor forma de se trabalhar o tema da AIDS com as crianças seja através de desenhos, de estórias, de jogos. Cabe, ainda, dizer que a prevenção, propriamente dita, deve começar na primeira infância, em torno dos quatro ou cinco anos. Temos os exemplos dos países desenvolvidos, como a Holanda, onde as campanhas de prevenção ao uso de droga, que é liberada no país, começam na infância, apresentando os melhores resultados. Prevenção está ligada à educação. Não se começa trabalhando a AIDS, em si, pode-se começar o trabalho, pela questão da higiene pessoal, pelos cuidados ao corpo, etc. Talvez esse seja o caminho.

Copyright 2000 eHealth Latin America           20 de Setembro de 2000


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