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Transição Nutricional: da Subnutrição à Obesidade - A Mudança de Conceito nos Países em Desenvolvimento

Doença dispendiosa, de alto risco, crônica e reincidente, a obesidade afeta milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive crianças. Embora não seja nova, a doença vem aumentando muito nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, como o Brasil, e já se comporta como uma verdadeira epidemia. "Isto não seria preocupante se a obesidade não fosse uma doença com grandes riscos de causar sérios problemas de saúde, além das várias doenças associadas a ela. É preciso urgentemente que aprendamos a prevenir e a tratar a obesidade", explica Dr. Amelio Fernando de Godoy Matos, professor de endocrinologia do Instituto Estadual de Doenças Endocrinológicas (IEDE).

Apesar dos poucos dados epidemiológicos disponíveis, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, nos Estados Unidos, a prevalência da obesidade dobrou nos últimos 20 anos. Hoje, 30% da população tem sobrepeso, 15% são obesos e cerca de 3% obesos com muito risco. Ela só perde para o fumo, como propulsora de doenças e mortes prematuras. A obesidade faz mortes. Estima-se que, nos Estados Unidos, a obesidade e demais doenças associadas matam 300 mil pessoas/ano. A OMS reúne informações econômicas, psicossociais e de saúde, dentre elas a que quase 10% dos orçamentos de saúde em países ocidentais estão hoje relacionados à obesidade. "Se associarmos esse dado com o rol de custos indiretos provenientes das diversas áreas relacionadas com a doença, teremos, sem dúvida, um montante astronômico de dinheiro, difícil de mensurar com precisão", conclui Dr. Amelio.

Mas é nos países em desenvolvimento, onde a doença começa a registrar seus números mais temíveis. Em uma época que a humanidade tanto tem se preocupado com a falta de alimentos e a subnutrição, quem poderia imaginar que a obesidade atingiria índices tão alarmantes? No Brasil, estudiosos observam o fenômeno: há uma relevante diminuição da prevalência da desnutrição nos últimos vinte anos, em comparação ao notável aumento dos casos de obesidade.

Monteiro, Mondini, Souza & Popkin, no capítulo Da Desnutrição para a Obesidade: a Transição Nutricional no Brasil, do livro "Velhos e Novos Males da Saúde no Brasil", demonstram por meio de resultados variados, que o Brasil vem substituindo rapidamente o problema de escassez pelo excesso. A desnutrição, ainda relevante, vem diminuindo, isto é, estamos trocando um mal pelo outro.

Os padrões nutricionais sofrem alterações a cada século, resultando em mudanças na dieta dos indivíduos, correlacionando também modificações econômicas, sociais, demográficas e relacionadas à saúde. O século XX foi marcado por uma dieta rica em gorduras (principalmente as de origem animal), açúcar e alimentos refinados, e reduzida em carboidratos complexos e fibras. Segundo pesquisadores, o predomínio desta dieta tem contribuído para o aumento da obesidade, em conjunto ao declínio progressivo da atividade física dos indivíduos.

A prevalência da obesidade tem aumentado nas diferentes regiões do Brasil, acompanhando a tendência mundial. Os índices estão em um crescente, o que exige uma reavaliação urgente de toda a sociedade. Dados regionais, de 1989, apontam curva ascendente de sobrepeso e obesidade no Brasil. Levantamento do Ministério da Saúde, referente ao ano de 1993, demonstra que cerca de 15% da população adulta já se encontra com sobrepeso; e 6,8% com obesidade.

O limite da normalidade: como identificar a obesidade

Admite-se que para a raça humana, a percentagem de gordura corporal situa-se entre 15 e 18% para o sexo masculino e entre 20 e 25% para o sexo feminino. Podem ser considerados obesos os homens com percentual superior a 25% e as mulheres com mais de 30%. A mensuração do percentual de gordura requer técnicas onerosas e nem sempre precisas. Diversos cálculos procuram estabelecer os limites de normalidade do peso para uma determinada altura.

A obesidade é identificada quando há um desequilíbrio energético, ou seja, a energia ingerida (a quantidade de calorias que você come) é maior do que a energia despendida (número de calorias usadas pelo seu metabolismo, durante atividade física e na formação de calor) por um longo período de tempo. De acordo com as tabelas da Metropolitan Insurance Life Company (Nova York, EUA), uma pessoa é considerada obesa quando seu peso for no mínimo 20% maior do que o considerado ideal para sua altura. Durante muito tempo, a medicina procurou um padrão de cálculo que pudesse ser utilizado em todo o mundo e que permitisse identificar, da melhor forma possível, o ponto a partir do qual uma pessoa pode ser considerada com sobrepeso e obesa. Existe uma série de medidas de peso, porém o Índice de Massa Corpórea (IMC), por sua praticidade, é hoje aceito como padrão de medida internacional. Sua forma de cálculo é a divisão do peso (em kg) da pessoa por sua altura, elevada ao quadrado (em m²).

Causas da obesidade

A doença pode ser causada por fatores orgânicos, ambientais e psicossociais como, influência genética, estilo de vida inapropriado, distúrbios comportamentais ou uma alimentação inadequada. Para os especialistas é necessário que seja feita uma análise de todo o contexto do paciente, agindo sobre cada um dos pontos que interferem no sucesso dos programas de reeducação alimentar e de mudança de comportamento.

As pressões psicossociais, de uma maneira igualmente severa, atingem o obeso com a mesma ou maior intensidade do que as doenças associadas. A teoria psicopatológica da obesidade sustentou, por um período, que a doença resultava de um distúrbio emocional na qual a ingestão de alimento, particularmente a ingestão excessiva de carboidratos e gordura, aliviava a ansiedade e a depressão. Novas explicações dos problemas da obesidade surgiram, como explicações biológicas convincentes sobre a etiologia da doença, avaliações sistemáticas da natureza e extensão dos problemas psicológicos das pessoas obesas e apreciação de até que grau a maioria dos problemas emocionais são causados pelo preconceito e pela discriminação experimentada pelos obesos.

Renda e escolaridade influenciam obesidade feminina

Uma pesquisa realizada na Faculdade de Saúde Pública de São Paulo relacionou a obesidade feminina com o desenvolvimento sócio-econômico. A população brasileira foi analisada a partir de sua distribuição nas cinco macro-regiões do país, onde descobriu-se que as causas da obesidade estão diretamente ligadas aos níveis de escolaridade e de renda.

Segundo a nutricionista e especialista em saúde pública, Ana Lúcia Medeiros de Souza, essa relação varia de acordo com os diferentes estágios de desenvolvimento em que se encontram as sociedades. Na dissertação de mestrado que defendeu na Faculdade de Saúde Pública da USP, ela demonstra a ocorrência dessa variação na população brasileira, a partir de sua distribuição nas áreas urbana e rural.

Apesar de também oferecer risco à saúde dos homens, que possuem maiores tendências a sofrer problemas cardiovasculares, a obesidade incide mais freqüentemente no sexo feminino. "É nas mulheres também que o problema recebe um destaque maior, talvez até pela pressão social, pelo culto à beleza" afirma a pesquisadora.

Na região Nordeste (área urbana), por exemplo, o estudo encontrou uma situação análoga à de países subdesenvolvidos. Nessas regiões, a renda e a escolaridade são fatores de exposição ao problema da obesidade feminina, ou seja, as probabilidades de desenvolver a doença aumentam paralelamente ao crescimento dessas variáveis. "A explicação está justamente na pobreza em que se encontram as pessoas, mesmo aquelas que foram classificadas como de alta renda. O crescimento da renda e da escolaridade possibilita um maior acesso à alimentação correta", conclui Ana Lúcia. A mesma situação foi encontrada em outras regiões pobres, como a Norte.

O Sul do país, por outro lado, apresentou uma relação diferente entre níveis de escolaridade e renda e a obesidade. Lá, tanto nas áreas rurais quanto nas urbanas, as pesquisas mostraram uma situação semelhante à de regiões desenvolvidas, onde essas variáveis revelam-se como fatores de proteção à doença. Quanto maiores os níveis de renda e escolaridade, menores são as probabilidades de tornar-se uma mulher obesa. "Isso acontece por causa de um maior acesso tanto à informação quanto a alimentos selecionados, disponíveis em regiões com um grau maior de desenvolvimento", afirma Ana Lúcia.

Os dados do estudo foram recolhidos na Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN) de 1989, que reúne uma amostra de 11.623 mulheres. Para fazer a análise, dividiu-se as mulheres em níveis de escolaridade e de renda, estabelecendo-os através de diferentes pontos de corte em cada área e região, por causa das disparidades de desenvolvimento encontradas no Brasil.

Segundo a pesquisadora, os resultados encontrados revelam um novo direcionamento da relação entre obesidade e níveis de renda e escolaridade. O maior desenvolvimento de algumas regiões tornam essa relação negativa pelo acesso à informação e produtos mais diversificados disponíveis no mercado. Ana Lúcia acredita que a obesidade tornou-se um problema de saúde pública. Para ela, as autoridades deveriam aproveitar essa mesma relação negativa para lutar contra o problema, investindo em campanhas de prevenção contra a obesidade feminina.

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