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Artigos de saúde

Equidade de Gênero Começa nas Faculdades

Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, as investigações sobre as diferenças de gênero na sociedade indicam que existe uma grande desigualdade em detrimento das mulheres, apesar de estas exibirem um maior índice de educação superior. A afirmação é da médica Claude Verges de Lopez, PhD do Instituto da Mulher da Universidade do Panamá.

De acordo com a pesquisadora, "Enfoque de Gênero" é um método científico que permite definir as causas e propor respostas mais eficientes e adequadas para a saúde integral de mulheres e homens, na busca de um serviço médico eficaz.

"A falta de conhecimento do enfoque de gênero por parte dos médicos é um dos principais fatores responsáveis pela situação de desigualdade da atenção em saúde prestada às mulheres no Panamá", garante a pesquisadora, para quem "existe uma estreita relação entre saúde, desenvolvimento e educação médica".

O desenvolvimento econômico desigual, atual, aumenta a carga de trabalho das mulheres e, por conseguinte, as mulheres passam a ter maior risco de ficarem doentes do que os homens, avalia. Uma jornada de trabalho dupla ou tripla aumenta o estresse fisiológico - principalmente durante o período fértil - e não se tem o conhecimento exato da dimensão de sua influência sobre a qualidade de vida desta mulher. Desconhece-se também os efeitos negativos do meio do trabalho sobre a saúde da mulher.

"Historicamente as escolas médicas têm reforçado a visão tradicional de mulher. Estudos diversos mostram as discriminações tanto com as pacientes quanto com as estudantes. Também não se encontram estudos acabados sobre a questão do gênero no currículo médico, tanto no Panamá quanto na América Latina e outros países do mundo", afirma.

Segundo Lopez, o assunto é tão importante que deveria ser incorporado aos currículos de ensino superior, iniciando pelo curso médico. Este foi o tema de sua pesquisa: Promoção da equidade de gênero no currículo da Faculdade de Medicina da Universidade do Panamá. "Um trabalho científico que busca contribuir para com o cumprimento dos compromisos nacionais e internacionais assumidos pelo país e pela Universidade do Panamá (UP), no intuito de realizar a promoção da igualdade de oportunidades para as mulheres", explica.

Este estudo se realizou com base no currículo vigente na Escola de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade do Panamá, como resultado do Convênio de Igualdade de Oportunidades, firmado entre a Universidade do Panamá - representada pelo Instituto da Mulher - e pela União Européia - representada pelo Projeto de Igualdade de Oportunidades.

Primeiro a pesquisadora realizou o diagnóstico da situação em seu país a partir da avaliação do currículo vigente em 1999. Para tanto, ela ouviu 63% dos estudantes e 11% dos professores, além de profissionais das áreas administrativas e educacionais. O resultado evidenciou que o currículo adotado pela Escola de Medicina da UP não reúne critérios suficientes para a promoção da igualdade, independentemente do sexo do beneficiado. Baseando-se nos dados obtidos, a médica salienta: "somente uma reforma curricular poderá oferecer um enfoque andragógico realmente interessado em permitir o desenvolvimento das propostas que levarão a alcançarmos este objetivo".

"A pouca importância que docentes e estudantes dão à este tipo de abordagem mostra que este método de ensino está pouco integrado ao processo educativo vigente na Escola de Medicina", adverte. A reforma que se propõe para um novo plano de ensino deve permitir dar maior relevância ao tema, assim como permitir a investigação das desigualdades das mulheres frente às enfermidades que as acometem, e avaliar em quanto isto influencia a sua qualidade de vida. "Conhecimentos fundamentais para o sucesso da iniciativa", avalia Verges, que sugere: "Outra possibilidade é a realização de estudos clínicos, epidemiológicos e sociais para que possamos compreender melhor estas realidades. Só assim seria possível desmontar a concepção de uma medicina neutra com relação à questão de gênero e propor uma visão holística do processo de saúde-enfermidade".

O enfoque holístico do processo de saúde-enfermidade para a atenção, cura, prevenção e reabilitação das pessoas afetadas em seu contexto sócio-cultural, faz necessária a utilização do enfoque de gênero como método de análise para a compreensão da complexidade das enfermidades e suas causas, além de oferecer soluções de qualidade.

"Ao recobrar seu valor humanístico, a medicina recobra sua essência", adverte Claude. Para ela o enfoque de gênero se inscreve no conjunto dos métodos científicos que permitem definir as causas e respostas para a saúde integral de mulheres e homens que saem em busca dos serviços de saúde. "A introdução deste estudo no currículo médico é fundamental para que se atinja a igualdade de direitos no que tange à saúde feminina", afirma, reiterando que o estabelecimento do enfoque de gênero como eixo transversal do ensino não aporta somente conhecimentos gerais e valores morais, é também essencial para que se garanta a qualidade da prática médica assim como os preceitos da bioética.

Desta forma, a proposta de Claude Verges é objetivamente a introdução deste enfoque como eixo do currículo de ensino médico. Um parâmetro de referência para que se atinja os direitos humanos em saúde. "Através da educação, em seminários por exemplo", é possível sensibilizar e capacitar professores e alunos sobre as diferenças que devem existir na abordagem dos problemas femininos e masculinos, saúde e currículo. "A medicina da mulher deve ser uma disciplina multidisciplinar integral. Ademais, o Instituto da Mulher do Panamá deverá ser um agente multiplicador desta experiência, assim como cada um dos participantes do Encontro Internacional O Corpo das Mulheres", conclui a panamenha.

O enfoque de gênero em números

50% dos alunos entrevistados entendem que o enfoque de gênero é um conceito ligado ao sexo e apresenta matizes sociais. Quase a mesma porcentagem (49%) afirma ter adquirido este tipo de conhecimento fora da Universidade do Panamá. Um terço deles considera que esta ótica é importante para seus conhecimentos gerais e para a carreira médica. 43% avalia que este é um importante valor. 28% dos homens e 40% das mulheres concordam com a inclusão do enfoque de gênero no currículo médico. Entretanto, 32% considera que este enfoque já está incluído. 66,5% considera que o mesmo não está incluído no currículo. 96% dos professores afirma não ter recebido nenhuma capacitação específica sobre este tema. 65% dos entrevistados pede seminários de capacitação a este respeito. A avaliação do plano de estudo atende a, em média, 37% dos critérios de enfoque de gênero, sendo que os programas de estudo das matérias básicas atendem entre 26 e 51%; e as matérias clínicas 20%-52%.

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