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Artigos de saúde

A Circuncisão Pode Proteger os Homens Contra a AIDS?

Há uma estimativa de cerca de 50 milhões de pessoas infectadas pelo vírus HIV nos dias de hoje, dos quais 50% são homens. Em ambos os sexos, 75% a 85% das infecções se devem ao contato sexual. No caso dos homens, 70% contraíram o vírus através do sexo vaginal enquanto uma porção menor o fez através do sexo anal, ao contrário talvez, do que é pensado pelo público geral.

Como o HIV infecta o homem durante o ato sexual?

Para que o vírus atinja a corrente sangüínea e cause a infecção generalizada, ele primeiramente infecta células específicas (macrófagos, células de langerhans e células dentríticas) localizadas nas mucosas (uma pele mais fina) genitais e/ou retais. Tais células têm a função especial de englobar partículas estranhas (vírus, bactérias, etc) e apresentá-las para as células de defesa do corpo humano (glóbulos brancos) para que essas possam destruir tais partículas. O HIV, dessa forma, penetra primeiramente nessas células que são então fundidas com linfócitos CD4+ (tipo de glóbulo branco) que então migram para tecidos internos. Dentro de dois dias, já se consegue detectar o vírus nos linfonodos ilíacos (regiões para onde drenam as partículas estranhas uma vez detectadas pelas células específicas) e logo após em linfonodos sistêmicos. Estudos microscópicos em humanos masculinos evidenciaram a presença dessas células específicas na uretra e na pele interna do prepúcio (pele protumberante do pênis que recobre a glande). Dessa forma, parece serem esses, os locais primários mais prováveis de infecção pelo HIV em homens.

Implicações

Uma revisão bibliográfica sobre a epidemia da AIDS feita pelo Dr. Roger V. Short e colaboradores, do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade de Melbourne - Austrália, evidenciou uma quantidade expressiva de artigos mostrando evidências epidemiológicas importantes a favor da circuncisão como fator de proteção contra a infecção pelo HIV em homens. De acordo com esses estudos, os homens circuncisados têm de duas a oito vezes menos chances de contraírem a AIDS. Ao mesmo tempo, há também uma proteção contra outras doenças sexualmente transmissíveis e uma vez que essas últimas aumentam a chance de transmissão do HIV de duas a cinco vezes, a circuncisão pode ter um efeito protetor ainda maior.

Uma forte evidência

A maior evidência do efeito protetor da circuncisão sobre a transmissão do HIV veio de um estudo realizado com casais na Uganda que possuíam sorologia para HIV discordante, ou seja, as mulheres eram positivas e os homens negativos. Nenhuma infecção ocorreu nos 50 homens circuncisados em 30 meses enquanto 40 de 137 homens não circuncisados tornaram-se infectados nesse mesmo período. Ambos os grupos foram supridos com acesso livre ao teste para HIV, instruções intensivas sobre prevenção do contágio e preservativos de graça, apesar de 89% dos homens não os terem usado nenhuma vez, e o uso dos mesmos não ter influenciado a taxa de transmissão da doença.

Por que a remoção do prepúcio diminui a suceptibilidade ao HIV?

O pênis normal consiste do corpo do pênis, glande, meato uretral, parte externa e interna do prepúcio e o freio (fino pedaço de pele que liga a camada interna do prepúcio à região ventral da glande). A pele externa do prepúcio é constituída de uma pele que funciona como uma barreira contra a infecção do HIV. Entretanto, a pele interna do prepúcio possui grande quantidade daquelas células específicas onde o vírus se instala primeiramente no processo infeccioso. Essa região é deslocada para trás durante o ato sexual entrando em contato com a mucosa vaginal e com suas secreções, ricas em HIV, possibilitando uma área suficientemente grande para que se tenha a infecção viral. Nos homens circuncisados, somente a porção final da uretra possui uma mucosa com células específicas as quais por sua vez se encontram em menor quantidade.

Lesões ulcerativas ou inflamatórias (DSTs) da uretra, prepúcio, freio ou glande causadas por outras doenças sexualmente transmissíveis possibilitam vias adicionais de infecção pelo HIV. Nos homens não circuncisados, o freio - altamente vascularizado - é um local altamente susceptível a lesões traumáticas durante o ato sexual e lesões causadas por outras DSTs ocorrem com freqüência nesse local. Assim a circuncisão também diminui o risco de infecção reduzindo o sinergismo existente entre o HIV e outras DSTs.

Conclusão

De acordo com os achados acima discutidos, conclui-se que a circuncisão pode diminuir o risco de infecção masculina pelo HIV através da diminuição de áreas que contém receptores específicos pelo HIV e pela diminuição das lesões no freio, sejam elas traumáticas ou causadas por outras DSTs. Mesmo sabendo que os preservativos de látex - camisas de vênus - devem ser a primeira escolha no que diz respeito à prevenção da AIDS e outras DSTs, eles são freqüentemente renegados ou utilizados incorretamente, podem se romper durante o ato sexual e podem estar submetidos a fortes objeções culturais e estéticas pelos usuários. Diante disso, a circuncisão pode se tornar um importante método de prevenção especialmente em países com uma grande incidência de infecção pelo HIV.

É importante que também seja repensado o sexo seguro, pois o contato de sêmen ou secreções vaginais com o pênis deve ser evitado, principalmente em homens não circuncisados. Assim, a masturbação masculina mútua onde um pênis pode estar exposto ao contato de sêmens infectados deve ser considerada como um comportamento de risco.

Novas estratégias de prevenção devem ser pesquisadas para se utilizar em ambos os sexos antes do ato sexual. A desvantagem de pomadas viricidas (destruidoras de vírus) reside no fato de que essas podem irritar a pele dos órgãos genitais aumentando assim o risco de infecção pelo HIV. O desenvolvimento de agentes tópicos que pudessem interromper ou inibir a ligação do HIV com células específicas da mucosa genital, ou seja, uma "camisinha química" poderá ser mais efetivo e mais aceito do que qualquer intervenção mecânica ou cirúrgica.

Fonte: BMJ 2000;320:1592-1594 (10 June)

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