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Artigos de saúde

Entrevista com Psicólogo

No Dia do Psicólogo, o BoaSaúde entrevista o Psicólogo Fernando F. Tavares de Lima, que nos fala sobre as dificuldades e esperanças da profissão, além de nos contar sobre suas experiências profissionais.

BoaSaúde: Na sua opinião, qual é a missão profissional de um psicólogo?

Psic. Fernando:Acredito que esta questão é bastante polêmica. As respostas podem ser dadas de diversas formas. Mas, na minha opinião, a Psicologia existe para pensar o ser humano. Sendo assim, pode ser aplicada nas mais diversas áreas em que haja pessoas envolvidas. Há psicólogos trabalhando em hospitais e clínicas médicas, também, nas áreas preventivas de saúde, além das escolas e demais instituições de ensino, nas áreas empresariais, na área do marketing e da propaganda, nas áreas jurídicas e, é claro, nos consultórios, ou seja, onde atuam os psicólogos clínicos, nos quais me enquadro.

A gama de opções para o trabalho, visando o desenvolvimento do ser humano, é imensa. A Psicologia é uma ciência nova, contudo é cada vez mais presente e respeitada por todos os profissionais, inserida na cultura e bastante valorizada.

Para complementar essa resposta, gostaria de informar que os Conselhos Federal e Regionais de Psicologia estão organizando a Iª Mostra Nacional de Práticas em Psicologia, com o tema "Psicologia e Compromisso Social". Este evento, da maior importância, acontecerá entre os dias 05 e 07 de outubro de 2000, na cidade de São Paulo, com o objetivo de troca de experiências e divulgação de trabalhos na linha das questões sociais.

BoaSaúde: Qual é a sua filosofia de trabalho?

Psic. Fernando:
Sou psicanalista. Acredito que a Psicanálise, ao contrário do que alguns podem estar falando, é extremamente atual. Claro que ela também evoluiu. Já se passou mais de um século desde que Freud começou a empregá-la em sua clínica. Assim como os pacientes mudaram, os sintomas mudaram, as formas de tratamento também sofreram mudanças importantes.

As pessoas preocupam-se muito com o tempo, com a demora das análises, que podem levar alguns anos, etc. O nosso mundo atual, "pós-moderno", é extremamente imediatista, não há tempo para reflexões, para assimilações, nem nada. Todos querem os resultados para ontem. Contudo, a compreensão psicanalítica e sua prática clínica, através da análise do inconsciente e de suas manifestações, como os sonhos, os atos falhos, os sintomas, é o método que me parece mais eficaz para ajudar as pessoas. Para mim, esta é a melhor técnica e a mais eficaz teoria de compreensão dos fenômenos psicológicos dos seres humanos. Claro que há várias outras formas de trabalho clínico, muitas delas sérias e respeitáveis, que apresentam bons resultados, também. Devemos tomar cuidado, apenas, com o charlatanismo, as crendices e as promessas de curas rápidas, vindas de técnicas não formais, ou seja, das técnicas não científicas. Hoje em dia essas técnicas "rápidas" que solucionam tudo, têm se difundido bastante e ajudado a manchar o nome dos profissionais sérios e da própria Psicologia, muitas vezes, ajudados pela péssima referência à profissão que é mostrada em algumas novelas, nos filmes, enfim, na mídia.

BoaSaúde: Quais as dificuldades mais comuns para o estabelecimento de um consultório de psicologia?

Psic. Fernando:
Em primeiro lugar, devemos analisar a crise econômica em que o País se encontra. Assim, os profissionais autônomos acabam sofrendo as conseqüências da economia. Cada vez menos pessoas podem pagar os tratamentos psicológicos em consultórios particulares. Se por um lado, a formação de um psicólogo clínico é bastante cara (vejamos como exemplo a formação de um psicanalista, que requer análise pessoal, supervisão e a própria formação teórico-técnica, por muitos anos), por outro, a grande maioria da população não possui recursos financeiros para dispor em longos tratamentos. Há um impasse que dificulta o trabalho em consultórios.

Analisando-se todo esse aspecto, nós nos deparamos com a necessidade de clínicas e consultórios que atendam ao público da classe média e da classe baixa. Demanda por psicoterapia existe e sempre existirá, as dificuldades são a concorrência (cada dia que passa surgem no mercado mais e mais profissionais da área, vindos de faculdades que dão uma formação apenas superficial, sem condições de encarar os desafios) e a falta de recursos para se pagar os preços pedidos pelos profissionais. De maneira geral, pode-se dizer que é um investimento grande e durante longos anos, até que o profissional possa colher frutos no trabalho clínico.

BoaSaúde: Na sua opinião, como é possível medir o resultado dos instrumentos clínicos utilizados em um paciente? Como saber se estão resultando em algum benefício real?

Psic. Fernando:
Evidentemente, para falarmos de resultados clínicos, só poderei falar da Psicanálise, pois é a área em que atuo. Realmente, não é possível medir ou dimensionar com precisão o benefício de um tratamento. Contudo, as pessoas que procuram a Psicanálise e a fazem por um período mínimo, até que os objetivos tenham sido atingidos, podem relatar os benefícios que adquiriram. Não há uma definição clara de quando se tem uma "alta". A idéia de que o inconsciente está em constante formação e que, assim sendo, não pode ser esgotado, explica a questão de que as análises devem prosseguir até que o analista e o analisando percebam, conjuntamente, que não pode haver mais ganhos daquela relação. Claro que não estou dizendo que não há objetivos. A Psicanálise é um método clínico, visa a melhoria do estado de vida emocional do cliente. No entanto, isso não pode ser garantido, como numa equação matemática. O "benefício real", como foi perguntado, pode ser sentido pela própria pessoa que se submete ao método analítico, mas não pode ser julgado por alguém de fora do par analista-analisando. Talvez esta seja a questão mais difícil e a que gera maiores discordâncias entre os analistas. Pessoalmente, acredito muito na qualidade e na eficiência da Psicanálise como método de tratamento e desenvolvimento das pessoas.

BoaSaúde: O que ainda falta no Brasil para que a profissão seja mais divulgada e atenda a uma população maior?

Psic. Fernando:
Certamente não estou falando com a visão "política" de quem é membro de uma gestão dos conselhos profissionais, até porque nunca participei deles. Contudo, acho que há muito o quê fazer pela melhoria da profissão. Em primeiro lugar, retomo a questão do grande número de faculdades de psicologia que jogam no mercado de trabalho profissionais despreparados, todos os anos. Vejo que o ensino deve ser mais forte, mais exigente, enfim, os alunos para se formarem deveriam ter que ter um nível mais alto.

Outra questão a ser considerada, é a imagem da profissão, muito desgastada pelos próprios profissionais ao adotarem técnicas não científicas, que passam a ser vistas como "mágicas", atingindo, ao meu ver, um status de terapia alternativa que só atrapalha na imagem da profissão. A Psicologia é uma ciência, mas com características muito particulares, por abordar o psiquismo dos sujeitos, contudo, práticas alternativas são entendidas como curandeirismo, e isso, certamente, denigre a imagem de todos nós. Como exemplo, podemos citar as formas preconceituosas com que as imagens dos profissionais são refletidas nos filmes, nas novelas, enfim, na mídia. Mas, a responsabilidade também é nossa. Não adianta só criticarmos a mídia. Vejam essa possibilidade que estou tendo de expressar as minhas idéias de forma séria, isso é ótimo. Se os psicólogos souberem ocupar melhor os espaços e "ajudarem" a melhorar a imagem da profissão, creio que a Psicologia ganhará, nesse próximo século, uma dimensão muito grande, aparecendo em várias áreas, atuando de forma multidisciplinar, aliás, como falei no início desta entrevista.

BoaSaúde: Como vê a atuação do CRP (Conselho Regional de Psicologia) e do CFP (Conselho Federal de Psicologia) para a profissão de psicólogo?

Psic. Fernando:
Na minha opinião, todas as profissões devem estar bem regulamentadas. Assim, os conselhos de todas as profissões são bastante importantes e podem ajudar muito aos seus membros. O CRP, em São Paulo, é bastante atuante para os profissionais da área, oferecendo constantemente ciclos de palestras, entrevistas sobre diversos temas da área, debates sobre filmes e vídeos, etc. Há ainda, a página na Internet, que oferece serviços bastante rápidos. Claro que não há respostas imediatas, mas em geral, em dois dias se consegue as informações que são buscadas. Convém ressaltar que todos os conselhos são entidades "políticas", ou seja, há interesses de grupos de pessoas por trás. Muitas vezes o psicólogo espera mais de um conselho do que ele pode dar. Mas, há o outro lado: uma anuidade que deve ser paga, para que o profissional possa atuar na área, muitas vezes criticada, e para alguns, um valor muito alto; algumas regras sobre propaganda de serviços tanto individuais como para empresas de psicologia. Tudo isso ajuda a dar corpo, organização e credibilidade à profissão, que é relativamente nova. A organização e a participação de todos os psicólogos é que vai gerar maior sustentabilidade à profissão.

BoaSaúde: Quais temas você está trabalhando em sua clínica?

Psic. Fernando:
Atualmente trabalho, prioritariamente, com adolescentes e adultos, embora esporadicamente eu receba alguma criança. Assim, temas relacionados ao uso de drogas, às dependências químicas, e às questões da sexualidade, do relacionamento afetivo, são bastante comuns; a partir dessas questões, por vezes eu me deparo com as perversões e com as situações conflitivas das psicoses.

Aparecem ainda as situações relacionadas ao narcisismo e, também, à depressão - esta bastante comum nos dias de hoje. As famosas neuroses, como as histerias e a neurose obsessiva também continuam presentes na clínica psicanalítica. Claro que ganharam uma roupagem diferente, não são mais os mesmos sintomas e as mesmas manifestações do séc. XIX, da época de Freud. Houve uma grande mudança da cultura, passando-se, inclusive, pela "revolução sexual", fato que certamente influi em sintomas atuais. Não que a sexualidade tenha deixado de ser um tema conflitivo para as pessoas, mas suas manifestações sintomáticas são outras.

Contudo, atualmente, as fobias e as questões ligadas aos distúrbios do pânico estão bastante em voga. De forma geral, na minha clínica, estas são as principais questões que tenho trabalhado.

Juntamente com outros psicólogos, das mais diversas linhas teóricas, formamos o Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia, Netpsi, para desenvolver serviços na área da Psicologia. Destacam-se os atendimentos psicológicos por preços acessíveis e realização de projetos preventivos na área de drogas, sexualidade e AIDS.

BoaSaúde: Quais as suas outras áreas de atuação profissional, além da clínica?

Psic. Fernando:
Sempre gostei muito de trabalhos preventivos, então trabalho numa ONG (organização não-governamental), o IBEAC, Instituto Brasileiro de Ensino e Apoio Comunitário Queiroz Filho, onde realizamos projetos preventivos no Município de Guarulhos, na grande São Paulo. Já tivemos vários projetos financiados pelo Ministério da Saúde e por outros órgãos internacionais, como a USAID, etc. Trabalhei num projeto da Secretaria Estadual de Educação em parceria com a Secretaria de Saúde, o "Prevenção Também se Ensina", dando treinamento para professores, coordenadores pedagógicos e diretores de escolas públicas. Estes eram formados para "multiplicar" as informações dentro de suas escolas. Todos esses projetos envolviam a temática do HIV/AIDS, da sexualidade e do uso de drogas. Realizei um projeto com adolescentes no Colégio Visconde de Porto Seguro, com os mesmos objetivos.

Sou psicólogo do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça da Infância e da Juventude - Ministério Público do Estado de São Paulo. Faço trabalhos de assessoria técnica, realizando pareceres e textos sobre os mais diversos assuntos que envolvam crianças e adolescentes. Também desenvolvemos treinamentos e palestras nas áreas de sexualidade, de drogas, enfim, abarcando temas de prevenção e de saúde.



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