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Artigos de saúde

Os Silêncios do Corpo das Mulheres

A professora emérita da Universidade Paris, Michelle Perrot, é uma personalidade científica e política no que tange aos estudos de gênero, assim sendo reconhecida em todo o mundo. Ela tornou-se uma bandeira pela visibilização da mulher enquanto objeto de estudo e está para este ramo do saber assim como Michel Foucalt está para a filosofia contemporânea, garantem seus discípulos. Tornou-se um ícone.

Uma das linhas de pesquisa mais recentes da historiadora francesa ela denominou 'silêncio dos corpos'. O que são os silêncios dos corpos, quais suas formas, seus fundamentos e como, onde e quando ocorre sua relativa dissipação são assuntos deste artigo, apoiando-se sobretudo na experiência do ocidente e observado na França.

O corpo

Dentro do discurso dos poetas, dos médicos, dos políticos, dentro das imagens de toda natureza - quadros, esculturas, cartazes - o corpo feminino sempre figura, sobretudo, onipresente. Não se deve esquecer, entretanto, que estes sujeitos carregam os silêncios de seus corpos - as grandes diferenças culturais, religiosas, éticas, etc. Tabus, dos quais a sociedade não fala mas que influenciam e determinam o rumo das vidas das mulheres.

Segundo a historiadora, há longas datas as mulheres são as esquecidas, as mudas da história. "O silêncio que as aprisiona é impressionante. Ele se aproxima de seus corpos, e assimila sua função - anônima e impessoal - de reprodução. Aquele corpo exibido, objeto de observação e de desejo, nós falamos dele. Mas ele se cala. As mulheres não falam nem devem falar. O pudor, que prende seus membros e fecha suas bocas, é a marca desta feminilidade. Em seu âmago, o sexo a enche de mistérios. A origem do mundo, num quadro de Courbet, é representado pelo sexo da mulher, signo de uma evolução, índice de uma história", afirma.

As convenções ensinam às mulheres da 'boa sociedade' que é preciso que sejam discretas, dissimulando suas formas, segundo códigos que variam de acordo com o lugar e o tempo em que vivem, ressalta Perrot, para quem os seios, as pernas, a barriga, são objetos de censura que traduzem as obsessões eróticas de uma época e que se inscrevem dentro da orientação da moda. Os cabelos, símbolo supremo da feminilidade devem ser disciplinados, perfeitos. A mulher, principalmente a jovem que pretende se casar, deve ter gestos contidos, assim como seus olhares, tom de voz e a expressão de suas emoções. O riso farto lhe é proibido pelas convenções. Entretanto, ela deve mostrar ser acessível ao sentimento e à dor.

Rumo ao Paraíso

Perrot conta que iniciou seu interesse pelo estudo das mulheres quando era estudante, nos anos 50, e o tema ainda não estava na moda. "Na verdade, eram os problemas sociais da classe operária que me interessavam", explica, lembrando que no pós-guerra a categoria operária francesa era muito importante, uma vez que o país estava sendo reconstruído. Após uma longa trajetória acadêmica e política, Perrot defendeu tese em 1970 sobre os operários em greve. Logo ela viria a se tornar professora da Universidade de Paris 7, "uma universidade muito aberta e dinâmica", afirma.

O movimento de maio de 1968 foi fundamental para marcar a escolha pelo estudo da história das mulheres. Em 1970 era lançado o Movimento pela Liberação das Mulheres e em 1973, junto com outras companheiras, Perrot criou um curso que buscava responder a uma pergunta: "As mulheres têm uma história?", que era o nome do curso. Desde então, a pesquisadora garante já ter orientado mais de 50 teses sobre o assunto. Outro momento muito importante na história de Michelle Perrot foi o lançamento da coleção "A História das Mulheres no Ocidente", obra coletiva que contou com a colaboração do professor Duby, célebre pesquisador do assunto, e outros 70 autores.

O Silêncio

Mas segundo Mme. Perrot o silêncio das mulheres é ainda bem maior quando se trata de sua vida íntima. Até mesmo as etapas de transformação do corpo feminino são entendidos pela sociedade como muito menos solenes do que o dos meninos. A adolescência masculina é considerada uma crise violenta. Já a das garotas, como uma doce mutação que as transpõe à condição de reprodutoras. A ausência de educação sexual faz com que as primeiras menstruações sejam vistas com surpresa. Curiosa assimetria entre a glória do esperma viril e a sujeira do sangue feminino.

A mulher é a alegoria política que, no século 19, encheu as vilas européias de estátuas celebrando os grandes homens, coroados pelas musas evanescentes, assim como os monumentos aos heróis mortos. A guerreira Germania, por exemplo, encarna a unidade alemã. Ao mesmo tempo, Marianne, uma forte mulher do povo, com o seio descoberto, (vinda da revolução francesa) encarna a República. Estas são algumas das formas de desapropriar um corpo reduzido ao silêncio da figuração muda, afirma a historiadora. Por outro lado, todas as particularidades dos corpos singulares devem estar em conformidade com um modelo impessoal.

Apesar dos esforços e da atenção dispensada por Michelle Perrot, e outros tantos estudiosos de gênero ao redor do mundo, ainda hoje convivemos com situações tais como a mutilação sexual de mulheres. No passado elas já tiveram seu clitóris estirpado em larga escala também na Grã-Bretanha, Estados Unidos e França, do que se ignora as proporções. A menopausa, por sua vez, continua quase semi-clandestina, carregada de um imaginário que deixa marcas ao denotar que a mulher que atinge esta etapa da vida não seja mais feminina como antes. Apesar de já se saber que isso é uma inverdade, a própria palavra tornou-se uma injúria ou um insulto.

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