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Artigos de saúde

Robert Gallo, de chinelos

Por: Nora Bär

Especial para Bibliomed.com

Concordemos: em Buenos Aires, a oportunidade de entrevistar um número 1 não se apresenta todos os dias. Por isso, quando neste mês Robert Gallo, co-descobridor do vírus da aids, chegou à cidade para participar da Biolatina 2000 – a jornada de biotecnologia, que reuniu numerosos especialistas sobre o tema, locais e estrangeiros, - várias dezenas de jornalistas apontaram para ele suas câmaras e seus gravadores.

Durante uma conferência de imprensa no subsolo do hotel Sheraton Libertador, Gallo teve que esperar pacientemente, parado em frente ao ruído dos flashes, para que a avidez dos repórteres fosse saciada. Porém, para mim, o verdadeiro privilégio aconteceu ao dia seguinte quando Gallo concedeu uma hora e meia de seu valioso tempo a um reduzido grupo de jornalistas especializados.

O encontro foi às 10:30 da manhã, no living de sua suíte no 19º andar. O sol atravessava as cortinas. Com uma roupa esportista e chinelos, Gallo se encontrava em muito bom ânimo e disposto a falar. E como falou....

–Dr. Gallo: nos países em desenvolvimento, tudo indica que a esperança de interromper a progressão da epidemia com o coquetel de medicamentos não se cumpriu. Qual é para o senhor o caminho a seguir de agora em diante?

–Há cinco anos as manchetes dos diários durante o Congresso de Vancouver enviavam a mensagem de que havíamos conquistado a Aids e a havíamos transformado em uma enfermidade crônica. Porém, a dramática situação pela qual passa o continente africano e grande parte dos países em desenvolvimento demonstra que o otimismo era precoce. Hoje sabemos que a Aids está aqui e não vai desaparecer. Entre outras coisas porque a terapêutica tríplice apresenta complexidades operatórias que a tornam inaplicável no Terceiro Mundo. Não é um problema de dinheiro, senão de logística. Requer-se uma análise de alta complexidade, acompanhamento para verificar os escapes de mutações e uma aderência praticamente perfeita para que o tratamento dê resultado. O coquetel não é e nem será efetivo no Terceiro Mundo porque, nele, não se aplicou nem se aplicará tudo isso. É impossível. É urgente que encontremos outras vias de controle da enfermidade.

–Outras temíveis pragas da humanidade, como a pólio ou a varíola, foram derrotadas por meio da vacinação maciça. No caso da aids, será viável desenvolver uma vacina preventiva?

–Bom, de fato eu pensei que – em se tratando de um vírus – encontraríamos antes uma vacina que um medicamento. Porém as coisas resultaram diferentes: desenvolvemos primeiro uma terapia e ainda não contamos com uma vacina. Para mim, restam ainda entre 6 e 10 anos para que tenhamos uma imunização segura. Mas não sei se conseguiremos desenvolver uma vacina preventiva, como as que conhecemos para outras enfermidades viróticas, ou teremos que combinar duas ou três vacinas terapêuticas.

–Que caminhos vocês estudam?

–Estamos provando três estratégias. Não digo que estas sejam as estratégias a seguir, simplesmente são as que estamos testando. Por um lado, uma vacina terapêutica contra o taxoide TAT, uma proteína que produz o vírus quando ingressa no organismo para inativar o sistema imunológico. Já foram feitos testes em seres humanos na Bélgica, na Tailândia e em Benin. Deram muitos bons resultados, mas não creio que a empregaremos sozinha, senão como complemento dos atuais tratamentos.

–Há um tempo os cientistas perguntam-se por que há pessoas naturalmente imunes ao HIV. Já é conhecida a causa de tal fato?

–Precisamente, há vários anos, junto com as pessoas de meu laboratório, publicamos um paper na Science que descrevia como os agentes naturais da proteção contra o HIV são as beta-quemokinas, umas proteínas que estão envolvidas nos processos de inflamação e na migração celular. Ao que parece, o vírus necessita das quemokinas para ingressar nas células. O caso dos hemofílicos que escaparam do contágio da aids através de um banco de sangue infectado pareceu demonstrar que se produzirmos maior quantidade de quemokinas talvez estaremos imunes à aids. Uma possibilidade que estamos considerando é tentar estimular a produção de quemokinas – ao menos, transitoriamente – capazes de oferecer proteção ainda que seja por períodos curtos.

–Qual seria, neste caso, a terceira via?

–Encontramos uma substância na urina das fêmeas de roedores e das mulheres grávidas que parece ter efeito antioncológico, anti-HIV e estimulante da formação de células sangüíneas, por isso é também radioprotetora. Isolamos esta substância e a chamamos maternina. O problema é que ainda não sabemos como funciona, não conhecemos seu mecanismo de ação e tampouco como prepará-la em grandes quantidades. Talvez dentro de seis meses tenha melhores notícias para dar-lhes. Quando mencionei a maternina no congresso, não sabia que havia jornalistas presentes. Peço-lhes que não publiquem nada exageradamente otimista porque a verdade é esta: a substância existe, purificamo-la, mas não podemos estabilizar sua produção e ainda não sabemos como ela age. Por agora, não é útil nem para os enfermos, nem para a ciência.

–O filme “Y la banda siguió tocando” retratou-o como um oportunista que se aproveita das pesquisas de Luc Montagnier. Que diria o senhor sobre isso?

–Olha… Tivemos uma pequena disputa, porém rapidamente a deixamos de lado. O problema foi quando os advogados foram envolvidos. A mim haviam outorgado três patentes e ao grupo francês, nenhuma. Fazer o que?! Em uma oportunidade tive um jantar em Paris com os diretores do Institut Pasteur e eles me advertiram que iam disparar toda sua artilharia contra mim. Então, regressei aos Estados Unidos e disse ao meu chefe do NIH: “Faça algo, tire essa gente de cima de mim”… Em um primeiro momento, contestou-me que não me preocupasse, que ele se ocuparia disso. Porém dois dias mais tarde me advertiu que não falasse porque poderia gerar-se um problema político com a França. Tive que suportar os golpes sem poder reagir. Haviam empregado excelentes advogados norte-americanos. O problema foi solucionado quando os Estados Unidos resolveram repartir as patentes com eles. Porém, pessoalmente, não tenho nenhum problema com Montagnier. Na semana passada falamos por telefone.

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