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O Papel de Cada um na Orientação Sexual e os Diferentes Modelos de Trabalho

Neste Artigo:

- O Papel da Família
- O Papel das Escolas
- Modelos de Orientação Sexual
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A Orientação Sexual depende de muitos agentes, cada um exercendo um diferente papel. Além disso, diversos modelos de trabalho têm sido discutidos pelos especialistas da área, tendo predominado, entre os mais modernos, o modelo conhecido como libertador. Na última parte desta reportagem, vamos abordar como se dá o papel da família e da escola na orientação sexual, embora saibamos que existem também outros agentes não menos influentes, como a própria mídia, que deixaremos para discutir em outra oportunidade.

O Papel da Família

Sobre o papel da família na orientação sexual, a bióloga, mestre em psicologia e diretora de escola, Helena Lima, convém que é o de nortear valores e critérios morais. "Muitas vezes pelo status sócio-econômico, mas também pelo fato de apresentar a religião básica", justifica. Afinal, acrescenta, "para falar em homossexualidade, aborto, incesto, virgindade, valores, critérios morais e religião entram em pauta... É importante, portanto, que a família tenha clareza do que sente e do que espera de seus membros", diz. Ela pergunta, exemplificando: "Namorada dorme em casa? Em qual cama? Viagens, permitidas? Andam de calcinha/cueca pelos aposentos? Mãe e pai tomam banho junto?", pois argumenta que esses valores não são restritos à sexualidade, mas referem-se a todas as arenas da existência. "Se um filho rouba um queijo do supermercado, está desafiando o limite. A família tolera essa conduta? Estimula? Se rejeita, como o faz?", continua.

"Enfim, a família deveria dar as orientações acerca do que considera certo e do que considera errado", define a especialista. Ela considera que é muito comum que se veja um medo, entre os pais, de dizer o que é certo e o que é errado. "Essa perda de referência prejudica a todos, gerando inseguranças, dois pesos e medidas, sensação geral de injustiça e falta de parâmetros", alerta.

O Papel das Escolas

A especialista Helena considera que as escolas têm o papel de trabalhar as informações 'biológicas' da sexualidade, algumas vezes usadas como pano-de-fundo para discussões psicológicas. "É nas escolas que muitas vezes surgem os primeiros 'amassos', desejos confessos e inconfessos, situações de inadequação, desde os pequeninos que se masturbam na sala de aula até os adolescentes rolando as escadas" explicita. Outras vezes, comenta, "é na escola que as crianças e adolescentes se sentem à vontade para desabafar, contar, por exemplo, de um aborto ou uma gravidez, o que desconcerta a todos". Sendo assim, ela justifica que é no ambiente escolar que as crianças devem encontrar a fundamentação para estarem informados, além do espaço para discussão dos aspectos psicológicos inerentes. "Apoio e compreensão (não demagogia) dos professores e funcionários, espaço para uma vida saudável não apenas em termos de sua sexualidade", complementa.

Para Marcelo Sodelli, mestre em psicologia da educação e diretor clínico do Netpsi - Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia, quando observamos a Orientação Sexual como instrumento preventivo, descobrimos que "de fato, a escola apresenta-se, potencialmente, como local privilegiado para trabalhos preventivos; porém, de acordo com Focesi (1990), ela somente estará educando em saúde, se levar em consideração a realidade do indivíduo, desenvolvendo suas percepções e sensações, orientando-o para comparar e analisar sua realidade e refletir sobre ela".

Na experiência de Marcelo, na grande maioria dos projetos de prevenção à AIDS que foram desenvolvidos nas escolas, percebe-se o pressuposto de que os assuntos polêmicos como uso de drogas, gravidez na adolescência, sexualidade, uso do preservativo, entre outros, sejam discutidos de maneira natural e espontânea. "Nesses projetos, espera-se que o educador ajude o jovem a assumir a responsabilidade de refletir e responder às questões que surgiram com o advento da AIDS. Ainda mais, é importante não deixar que valores morais e crenças regidas pelo senso comum interfiram no trabalho preventivo. Esses projetos alegam que é tarefa do educador fazer com que os adolescentes desenvolvam a auto-estima, saibam fazer escolhas, posicionem-se de forma pessoal frente a situações, responsabilizando-se por suas decisões", contrapõe Marcelo.

A eficácia de um projeto de orientação sexual nas escolas tem sido, portanto, tema de permanente debate. Do ponto de vista de Helena, o primeiro passo para qualificar um projeto como eficaz, é preciso que haja objetivos claros a serem alcançados, uma vez que "a eficiência não é um parâmetro solto e isento", define. Portanto, ela propõe que, para começar, a escola trace uma metodologia competente para abarcar dois níveis de trabalho, que, ao seu ver, são necessários: o biológico/informações e o psicológico/atitudes.

De acordo com Helena, o modelo de prevenção a ser utilizado, em primeiro lugar, deve excluir as "palestras", muito utilizadas e, segundo ela, superadas. "São puramente informativas e pontuais", justifica. Helena defende o modelo que chama de "Protagonismo Juvenil", que trabalha com os próprios adolescentes sua maneira de entender a sexualidade, as drogas e a violência. "Capacitando o adolescente a interagir com os colegas da mesma idade ou mais novos, os projetos têm maior eficácia, permitindo autonomia da escola e uma reflexão contínua, dentro da realidade específica daquele grupo", explica.

Helena analisa a introdução da orientação sexual nas atividades já existentes das escolas como um problema a ser tratado individualmente. "Cada escola tem um tipo de disponibilidade, uma carga horária a cumprir. Se a escola for tradicional, tanto mais complexo, porque a valorização do conteúdo pedagógico muitas vezes supera a compreensão e o interesse pelo tema. Numa escola mais moderna, a ênfase à formação pessoal permite abertura de espaços e inserção do tema na programação. Mas é sempre um desafio", avalia. Trata-se, de acordo com a especialista, de um problema muitas vezes de difícil solução para o planejamento escolar. Ela se pergunta: "Mesmo as oficinas, onde colocá-las? Em horário de aula?". De acordo com a bióloga, essa metodologia tem prós e contras. "Escolher uma sala de aula 'fechada' implica em arcar com omissões derivadas da 'manutenção de imagem'. Montar grupos de alunos em horários alternativos também tem suas implicações", contrapõe.

Para Helena, as escolas, com suas viagens, eventos e agendas lotadas, têm seus planejamentos feitos em meados do segundo semestre, de um ano para o ano seguinte. Para se produzir um programa sério de orientação sexual, com espaço garantido na programação escolar, Helena sugere que o ideal é entrar nesse planejamento, "deixando que o grupo de coordenação avalie qual o melhor momento e quais as melhores formas de se trabalhar com professores, funcionários, alunos".

Modelos de Orientação Sexual

Entre os vários modelos de prevenção de saúde, chama a atenção àqueles que lidam com a AIDS, tendo em vista que envolvem a sexualidade e se dirigem, muitas vezes, aos adolescentes. No Brasil, passamos do modelo aterrorizador e culpabilizador, em que as campanhas tinham como chamada "Cuidado, a AIDS vai te pegar" e "Se você não se cuidar, a AIDS vai te pegar", para um modelo autoritário, ainda que não menos culpabilizador. A definição é da Presidente do APTA - Associação para Prevenção e Tratamento da AIDS, Teresinha C. Reis Pinto, biomédica e pedagoga e organizadora do EDUCAIS, um encontro voltado para os educadores que lidam com a questão da AIDS nas escolas, e portanto, muitos deles ministrantes de orientação sexual.

Teresinha, também organizadora do livro AIDS e ESCOLA - Reflexões e propostas do EDUCAIDS, entende que estes modelos fazem prevenção para o outro e, portanto, reflete uma relação de dominação entre o que é "benfeitor", o "profissional" e aquele que "necessita, que deve se prevenir". De acordo com a especialista, estes modelos, "por serem destituídos da reflexão da práxis e constituído de ações cada vez mais apressadas e caracteristicamente urgentes, acaba por não produzir o resultado no tempo e espaço desejados".

A partir destas reflexões, Teresinha acredita "ser urgente a adoção de um modelo que faça prevenção com o outro, que estabeleça um diálogo com ele". Ela cita Paulo Freire para definir o agente de prevenção: "um fazedor, um interferidor que cria, recria, que está no mundo e com o mundo". Sendo assim, ela defende um modelo de prevenção que "admita que a realidade é mutável, que está em constante alteração pela ação do homem, que é contraditória e que é feita de relações".

A biomédica critica frontalmente os trabalhos de prevenção baseados em palestras, pois, segundo ela, este sistema, sempre o primeiro a ser aceito pelas direções de escolas, está adequado às estruturas historicamente autoritárias de ensino: "hierarquizado, compartimentalizado e conteudista". Por outro lado, a presença de um adulto "simpático, moderno" como orientador, quando dirige, ensina o que deve ser feito, é dono da chave da sala, do armário e dos horários, de acordo com a presidente da APTA, "proliferam na mesma proporção da gravidez dita por nós como 'fora de hora'". Ainda assim, em contrapartida, ensina Teresinha, "os grupos coordenados pelos próprios adolescentes têm imensa dificuldade de se impor como opção de trabalho nas escolas".

Ela vai mais longe em sua definição de um modelo que chama de "libertador" e insiste que é exatamente nos grupos coordenados por adolescentes que o modelo libertador vai investir e se respaldar: "Porque é aqui que encontra terreno fértil para a compreensão da realidade desse jovem e principalmente para o estabelecimento de uma relação dialógica com ele. Significa não abrir mão do papel de adulto, mas deixar de ser o que ensina e induz para ser o que escuta, reflete e constrói junto".

Segundo Teresinha, este modelo pressupõe que o educador disponha de tempo e forme vínculos, "que viabilize a compreensão da extensão do conceito de vulnerabilidade e o compromisso com o exercício da cidadania". Teresinha conclui, sobre o modelo que acredita ser o correto, não apenas para prevenir a AIDS, que é o foco da ONG (Organização Não-Governamental) que dirige, mas também porque é um modelo que considera o adolescente integralmente, em todas as suas dimensões e trata da construção de sua consciência responsável sobre o seu corpo, sua mente e, como conseqüência, sua sexualidade: "Acima de tudo, o modelo de prevenção libertador exige uma postura inequivocadamente solidária".

Síntese de Modelo de Orientação Sexual nas Escolas

a) preparo e capacitação dos professores e funcionários sobre as questões de sexualidade, drogas e violência. Informações e oficinas para sensibilização e trabalho dos aspectos psicológicos. Esse é o alicerce do trabalho, pois são as pessoas que estão no dia-a-dia da escola e em contato diretíssimo com os alunos.

b) apresentação do projeto para os pais, com os parâmetros morais nítidos (não vamos condenar isso ou aquilo, nem estimular isso ou aquilo, vamos fazer tais e tais trabalhos...)

c) oficinas com alunos: o que eles querem e precisam discutir? Caixa com dúvidas anônimas, espaços para discussão com suporte de um psicólogo, espaço para mobilização de sentimentos relacionados às opiniões e atitudes diante da vida.

d) trabalho junto à direção e coordenação, para garantia de sigilo e autonomia da equipe, definição dos objetivos e apoio logístico.

Fonte: Helena Lima
Bióloga e Psicóloga, Diretora da Unidade Perdizes do Colégio Pentágono

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