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A Calcificação Aórtica Aumenta o Risco de Infarto do Miocárdio?

O cálcio é um mineral de extrema importância no organismo, tendo diversas funções como regulação da contração muscular e transmissão nervosa, ativação de partículas relacionadas com a coagulação sangüínea e sustentação do corpo humano. De forma que em situações normais, ele está armazenado nos ossos sendo constantemente retirado e recolocado nos mesmos de acordo com as necessidades dos diversos sistemas orgânicos. Diversas doenças podem levar a um aumento do cálcio fora dos ossos o que por sua vez vai possibilitar um acúmulo de cristais desse elemento em várias regiões do corpo, como por exemplo, nos rins levando às tão temidas "pedras" (cálculos) renais. Por outro lado, mesmo em situações normais, quando não há necessariamente um aumento da quantidade de cálcio no sangue, ele pode se depositar em locais que por ventura se encontrem desprovidos de mecanismos inibitórios sobre a sua deposição. Dentre as regiões onde isso ocorre, estão os vasos sangüíneos, particularmente as artérias (vasos de calibres mais grossos, submetidos a uma maior pressão sangüínea e responsáveis pelo direcionamento do sangue oxigenado aos tecidos).

Geralmente, a deposição de cálcio nas artérias ocorre em locais previamente lesados, como em placas de aterosclerose (lesões produzidas pelo acúmulo de colesterol seguida de uma reação inflamatória local específica) ou em trombos, locais onde houve uma ativação da cascata de coagulação ocorrendo após exposição das placas de aterosclerose perante a ruptura da membrana interna das mesmas. Sabe-se cada vez mais da intensa relação da aterosclerose com o infarto cardíaco devido à diminuição do diâmetro dos vasos e assim da oferta de oxigênio ao coração. No entanto, sabe-se também, que a maioria das pessoas irão desenvolver placas de aterosclerose no leito vascular, mas como há vários graus de lesão, somente aquelas mais graves serão responsáveis pelos eventos cardíacos. A deposição de cálcio no leito vascular pode ocorrer em lesões tanto graves quanto leves. Não é rara a visualização, à radiografia de tórax, de áreas de calcificação no arco aórtico - artéria mais calibrosa do corpo humano, sendo a via de saída de cerca de 80% do sangue bombeado pelo coração. Tal fato ocorre especialmente em pessoas acima dos 65 anos. Apesar desse achado ter sido considerado "normal para a idade", perguntas têm sido feitas se o mesmo pode estar relacionado com um risco maior de eventos vasculares como infarto cardíaco, derrame cerebral e obstruções arteriais periféricas (por exemplo nos membros inferiores).

Um estudo desenvolvido na Califórnia - EUA, pelo Kaiser Permanente Medical Care Program através do Dr. Carlos Iribarren e colaboradores tentou chegar a essas respostas acima mencionadas, acompanhando milhares de pacientes por vários anos e posteriormente avaliando os resultados obtidos. O estudo foi publicado em junho de 2000 na revista JAMA - Journal of the American Medical Association.

O Estudo

O objetivo deste estudo foi caracterizar o risco de pacientes com calcificação aórtica detectada à radiografia de tórax e de avaliar a associação a longo prazo dessa, com a hospitalização por doença coronariana (angina cardíaca, infarto cardíaco), derrame cerebral e doença arterial periférica.

Métodos

Foram cadastrados 55.916 homens e 60.393 mulheres a partir de 1964, com idade variando entre 30 a 89 anos, que se submeteram a revisões periódicas voluntárias até 1973. Na coleta de dados, tiveram importância os seguintes parâmetros: níveis sangüíneos de colesterol, índice de massa corporal (peso em quiilograma divido pelo quadrado da altura), nível de ingestão alcoólica (mais de três drinques por dia, menos de três drinques por dia, nenhuma ingesta), presença de hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, história familiar de infarto cardíaco e teste para sífilis (a sífilis pode causar uma alteração importante nessa região da aorta). Cálculos estatísticos foram feitos para selecionar fatores de risco independentes para o sexo quais foram: idade, raça (negros, asiáticos, brancos), nível de educação (universitária ou não), tabagismo, nível de ingesta de bebidas alcoólicas, índice de massa corporal, níveis sangüíneos de colesterol, hipertensão, diabetes e história familiar de infarto cardíaco.

Resultados e Conclusões

A calcificação aórtica esteve presente em 1,9% dos homens e em 2,6% das mulheres sendo que acima de 65 anos, essa prevalência foi de 10,6% nos homens e 15,9% nas mulheres.

Houve uma associação entre a calcificação aórtica e riscos tradicionais de doenças vasculares como idade, raça, tabagismo, hipertensão arterial, níveis altos de colesterol no sangue (nas mulheres), enquanto houve uma relação inversa com história familiar de infarto cardíaco e índice de massa corpórea elevado. Foi estatisticamente comprovado um risco aumentado de doença coronariana em ambos os sexos e derrame cerebral nas mulheres, naqueles(as) pacientes com calcificação aórtica.

Corroborando estudos pregressos, houve uma maior prevalência de calcificação aórtica em mulheres do que em homens, especialmente após os 65 anos. A princípio, três fatores distintos poderiam explicar tal diferença. O primeiro estaria relacionado à maior facilidade de visualização de calcificação no sexo feminino através do teste realizado (radiografia do tórax). O segundo diz respeito ao fato de as mulheres sofrerem mais com as alterações metabólicas ósseas (devido à diminuição do estrógeno) levando a uma osteoporose por vezes mais precoce e/ou mais intensa caracterizada pelo aumento da retirada de cálcio dos ossos podendo então ser depositado nos outros tecidos. Há estudos que demonstraram uma diminuição da calcificação coronariana (artérias que irrigam o coração) após a reposição hormonal. O terceiro fator seria a sobrevivência seletiva das mulheres caso os homens com calcificação aórtica morressem mais cedo.

Os resultados acima expostos juntamente com outros estudos anteriores sobre o assunto incitam a realização de estudos posteriores com técnicas mais precisas e ao mesmo tempo abrem debate sobre a necessidade de se utilizar drogas que diminuam a calcificação para reduzir o risco de eventos vasculares agudos. Desde já, no entanto, deve-se ter em mente, a importância de um controle mais rigoroso dos fatores de risco tradicionais para doenças vasculares (infarto cardíaco, derrame cerebral e doenças arteriais periféricas) nesses pacientes que já possuem calcificações aórticas.

Fonte: JAMA 2000;283:2810-2815

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