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Artigos de saúde

A Medicina na Virada do Milênio

"A vida é um combate, que os fracos abate, que os fortes e os bravos só quer exaltar." "JUCA PIRAMA", de Gonçalves Dias.

O momento em que atravessamos sugere análise e reflexão. Análise, do que ocorreu com a Medicina durante os últimos 1000 anos e, reflexão sobre as suas possibilidades futuras.

Nosso objetivo é trazer algumas observações sobre o vasto campo da Medicina, baseando-se em dados publicados recentemente na imprensa médica, destacando-se como principais fontes de consulta as revistas "The Lancet" e "The New England Journal of Medicine". Serão abordados somente alguns aspectos pois não temos a intenção de analisarmos detalhadamente a ciência médica.

A evolução da Medicina tem sido fantástica, principalmente nos últimos 100 anos, quando assistimos a importantes modificações em todos os setores.

O século passado inicia-se com um passo decisivo sobre o conhecimento da mente humana através da publicação da "Interpretação dos Sonhos" de Freud. Nada influenciou tanto o comportamento humano como a psicanálise.

Na época em que o trabalho revolucionário de Freud era publicado, as principais causas de morte do homem eram a pneumonia, a tuberculose e a diarréia. As doenças do coração e o câncer ocupavam o quarto e o quinto lugares respectivamente.

Desde esta época observam-se também modificações importantes tanto na área do estudo das doenças como também na área do comportamento do médico frente às doenças e aos doentes.

Foi durante o último século que os médicos passaram a receber noções de Medicina Social durante o curso de graduação e desta maneira passaram a ter informação sobre a importância da prevenção das doenças. Passou-se a observar o comportamento social das pessoas o que serviu de base para a criação de políticas de saúde pública baseadas na tríade: saúde, doença e comportamento social.

Os cuidados com a higiene influenciaram a diminuição das infecções, mudanças de comportamento, como o controle do tabagismo e sua influência sobre o câncer, são exemplos marcantes.

A saúde tornou-se um importante índice que avalia o desenvolvimento econômico de um país. Os países mais ricos apresentam classicamente os melhores índices que apontam para melhores qualidade de saúde e expectativa de vida, destacando-se a importância dos investimentos nos setores da saúde.

Mas a prosperidade econômica não traz necessariamente melhores níveis de saúde. A revista "The Lancet" destaca em artigo recente (The Lancet,354, 4,dez 1999) a importância da educação da população. Estudo que compara entre si países de baixa renda per capita e diferentes níveis de educação, mostram que os melhores índices de saúde se encontram entre aqueles de melhor nível educacional. O Brasil é citado neste trabalho e infelizmente está entre aqueles de baixo nível cultural e de baixa qualidade de saúde.

Dados estatísticos recentemente revelados pelo IBGE apontam para uma melhora na distribuição de renda no Brasil, apesar de ainda 34% de nossa população ser considerada pobre e destes, 10 milhões de pessoas são miseráveis. Possuímos uma das piores concentrações de renda do mundo. Saúde e educação parecem que finalmente estão sendo levadas a sério em nosso país, como demonstram os investimentos que estão sendo feitos nas áreas sociais.

Outro aspecto relevante na avaliação da prosperidade sócio-econômica de um país é a mortalidade infantil, considerada atualmente um dos mais importantes índices médicos e indicador do progresso de um país. Aqui se encontra uma das mais importantes conquistas ocorridas no milênio. Por centenas de anos a mortalidade infantil era altíssima e sua importância desprezada.

A morte infantil era considerada uma coisa natural... Somente há 200 anos surgiu a Pediatria e com ela a preocupação com a saúde infantil. O controle das doenças infecciosas e contagiosas das crianças contribuíram muito para a diminuição da mortalidade infantil. Recentemente, por volta dos anos 40, passou-se também a dar importância para a criança no seu contexto psicossocial.

A relação médico-paciente também sofreu grandes transformações nas últimas centenas de anos. Há mil anos os médicos eram confundidos com mágicos e depois com religiosos, sempre ligado a poderes sobrenaturais. A partir do século XI a Medicina passou a ser desvinculada da Igreja surgindo em Salerno a primeira escola médica.

Em todas as épocas, entretanto, a postura do médico sempre foi superior ao paciente, ora era o pai, ora o religioso ora o sábio. No século XX isto modificou-se radicalmente, trazendo importante contribuição para o desenvolvimento da ciência médica. Hoje o médico coloca-se no mesmo nível do paciente, fazendo parte de uma equipe de saúde, que assiste as pessoas. A verdade médica é questionada com freqüência por todos, que procuram avidamente a informação em todos os cantos, inclusive na internet.

Esta situação contribui para enriquecer a relação médico-paciente, tornando o médico um verdadeiro parceiro. O humanismo tem aproximado os profissionais de saúde dos doentes, com resultados muito positivos.

O aparecimento da Bioética, importante fórum de debate em que participam pessoas das mais diferentes origens profissionais, contribuiu também para a melhoria das relações médicas, permitindo a discussão ampla das questões mais polêmicas, como a morte, o abortamento, a clonagem e a inseminação artificial, por exemplo.

Além dessas importantes modificações das relações da doença com a Sociedade e com o Médico, observam-se também modificações consideráveis quanto ao seu diagnóstico, o aparecimentos de novos medicamentos e novos tratamentos e conseqüente mudanças significativas na evolução de inúmeras doenças.

Diagnóstico

O diagnóstico das doenças sofreu incrível evolução, passando dos simples procedimentos como o exame do pulso, da pressão arterial, ausculta ou a simples e milenar observação da urina, para exames bioquímicos sofisticados, a ultrassonografia, a tomografia e a ressonância magnética. A imagem que mostra o trabalho das células já é uma realidade quando falamos do estudo do sistema nervoso central. O computador e a internet permitiram o aparecimento do diagnóstico feito à distância, surgindo a telemedicina.

Medicamentos

O progresso na farmacologia durante o século passado foi incrível: a mágica da alquimia deu lugar a uma ciência firme e sedimentada. Considera-se que o nascimento da farmacologia moderna ocorreu no final do século 19 com a produção da "fenacetina" pela Bayer e da "aspirina" por Hoffman.

No século passado foram desenvolvidos a Insulina e outros hormônios, Vitaminas e Sulfas. A descoberta da Penicilina e da Estreptomicina durante a II Grande Guerra mudaram completamente o comportamento da tuberculose e de muitas outras infecções. O desenvolvimento de medicamentos psicotrópicos deram novo alento às doenças mentais.

A cortisona para as doenças inflamatórias, a levodopa para a doença de Parkinson, drogas imunossupressores ao controle da rejeição dos transplantes, medicamentos que controlam a pressão arterial, medicamentos antidepressivos, são alguns exemplos de substâncias verdadeiramente revolucionárias. Evidentemente há muito ainda pela frente, visto que o resfriado comum ainda não tem medicação...

Por outro lado a sociedade moderna mostra clara tendência a exagerar no uso de medicamentos, sendo preocupante o exagero no uso de vitaminas, de anti-radicais livres, de medicamentos tranqüilizantes e antidepressivos, em detrimento a simples comportamentos como a utilização de dieta equilibrada, realização de exercícios físicos regulares, combate ao tabagismo e controle de peso e administração do estresse

Envelhecimento

No início do século passado 8% da população da Inglaterra tinha 60 anos e nos dias atuais o número subiu para 20%, mostrando uma clara tendência no aumento da população de idosos. O aumento deste segmento da população ocorre em todos os países, junto com significante melhoria na sua qualidade da saúde.

A velhice no início do século 20 era sinônimo de doença e dependência. Os anos finais da vida eram vistos como um período de problemas que preocupavam os governos, as sociedades e as famílias. A observação do crescente aumento na população de idosos gerou muita preocupação nos anos 30-40.

Após a II Grande Guerra o idoso passou a ser visto de maneira diferente, passando a ser valorizado em suas capacidades. Atualmente, a população de idosos apresenta-se saudável, participa do mercado de trabalho e tende a apresentar um período cada vez mais curto de doenças que levam à morte.

São dados que refletem de maneira significativa as conquistas obtidas pela Medicina nas últimas décadas. O processo biológico do envelhecimento tem sido cada vez melhor compreendido, permitindo a distinção entre as manifestações naturais da velhice e as doenças especificas do período.

Gripe

A gripe sempre foi devastadora e só recentemente conseguiu-se o seu controle com o reconhecimento do vírus responsável: influenza. É a principal infecção das vias respiratórias e deverá persistir durante o próximo milênio.

A primeira epidemia de gripe conhecida ocorreu em 1173-74 na Europa e a grande pandemia ocorreu em 1580, observando-se uma periodicidade variável de lá para cá. No período de 1918-19 ocorreu a considerada principal epidemia de gripe conhecida, matando 1% da população mundial. Outras, de proporções menores ocorreram em 1957 e 1968.

A sua prevenção passou a ser feita através de vacinas de vírus atenuado que deve ser administrada na população em geral, cada ano, com destaque para as crianças e idosos. Nos próximos anos estarão disponíveis medicações antivirais que atualmente estão em desenvolvimento e que contribuirão para o controle da doença.

Doenças Sexualmente Transmissíveis

As doenças sexualmente transmissíveis tiveram na sífilis um exemplo devastador e duradouro. Até hoje discute-se se foi trazida da América por Colombo ou se deve a mutação de uma moléstia já existente na Europa. Como ocorre com a AIDS, sua origem até hoje não está bem esclarecida.

Durante centenas de anos foi o mercúrio o seu único remédio... Somente no início do século passado a sífilis passou a ser melhor conhecida e ficou controlada com o aparecimento da penicilina. Como a AIDS, também foi considerada por muitos um castigo e relacionada a certos grupos sociais, mas ao contrario da AIDS foi rapidamente eliminada pela penicilina.

A AIDS encontra na sua dinâmica de transmissão (contacto sexual, número de parceiros em um determinado período, e na sua capacidade de infectar) uma das principais causas de sua persistência.

Alterações no comportamento das pessoas frente a doença são fundamentais para o seu controle, e aí deve se destacar o uso de camisinha nas relações sexuais e de seringas descartáveis no caso da transmissão devida ao uso de drogas injetáveis. O avanço farmacológico, com o desenvolvimento de novas drogas antivirais tornaram a AIDS uma doença controlável.

Câncer

O milênio termina sem que se tenha conseguido vencer o câncer, apesar de grandes avanços conseguidos no último século. É a terceira causa de morte nos países desenvolvidos. Observa-se um aumento na sua mortalidade devido principalmente ao aumento da população de mais idade e também ao aparecimento de doenças como a AIDS que facilitam o aparecimento de certos tumores.

Entretanto, muitos tipos de câncer foram praticamente eliminados neste último século e isto graças a medidas preventivas, desenvolvimento de novos aparelhos de radioterapia e o aparecimento de drogas quimioterápicas. Mas o diagnóstico precoce ainda é a principal arma contra o mal.

Doenças Cardiovasculares

A importância da prevenção está por trás das mais importantes conquistas médicas conseguidas, refletindo-se em todos os segmentos da medicina.

As moléstias cardiovasculares foram as mais beneficiadas pela política da prevenção, com destaque para o infarto do miocárdio e o derrame cerebral.

O crescimento da incidência da doença cardíaca durante o século passado foi muito grande, passando na década de 30 a ser a primeira causa de morte no mundo desenvolvido. No final dos anos 40 o mundo industrializado passou a investir pesado no estudo das doenças cardiovasculares e na década de 60 o conceito de fatores de risco foi disseminado em todo mundo.

Os controles da pressão arterial, do diabetes e do colesterol, o combate ao tabagismo, ao estresse e a obesidade levaram a significante queda da mortalidade devida às doenças cardiovasculares.

O aparecimento de unidades de terapia intensiva, o desenvolvimento de sofisticados equipamentos de controle e de diagnóstico da função cardiocirculatória, e a utilização de medicamentos que alteram a coagulação sanguínea e controlam a pressão, contribuíram de maneira definitiva para os resultados obtidos.

A revascularização cardíaca, a angioplastia e os transplantes cardíacos completam as conquistas terapêuticas conseguidas no século passado no âmbito cardiovascular.

Por outro lado novos fatores de risco têm sido identificados, como por exemplo, a homocisteína sanguínea, que aumentada, indica predisposição à doença vascular, sendo mais uma arma para a prevenção.

O estudo da arteriosclerose, que está na base das doenças vasculares, tem recebido atenção especial, o que é medido pelo volume de trabalhos publicados.

Todas as especialidades médicas foram beneficiadas nesses últimos anos com destaque para a oftalmologia, neurocirurgia, psiquiatria e a ginecologia.

Futuro

A visão do futuro entretanto ainda traz preocupações. Tem sido observado que a doença cardíaca ainda é a principal causa de morte no mundo desenvolvido, em parte devido ao aumento da população de idosos e em parte a complicações da própria doença, como a insuficiência cardíaca e as arritmias.

Observa-se o aumento do tabagismo, do sedentarismo e da obesidade entre jovens, principalmente nos países desenvolvidos. O número de diabéticos está aumentando. As pessoas ainda não tem conhecimento suficiente sobre as doenças havendo necessidade de se aprimorar a política de informação médica para leigos.

Entre outros importantes problemas previstos, destaca-se a resistência dos micro-organismos aos antibióticos, como demonstra muito bem a expansão da tuberculose pulmonar, que está sendo observada em várias partes do mundo.

A Medicina Molecular, baseada na biologia, deverá orientar os avanços médicos neste século, pois permitirá o conhecimento aprofundado das doenças. O melhor conhecimento do funcionamento das células permitirá combate eficaz à arteriosclerose e às células cancerígenas.

O estudo da genética individual, através do genoma, dará a base para a grande revolução que deverá ocorrer neste século. A genética permitirá o conhecimento detalhado das alterações que ocorrem nas doenças. Desta maneira não se tratará, por exemplo, a hipertensão arterial, e sim um tipo específico de hipertensão, como aquele que se deve mais a retenção de sódio, quando então deve utilizar-se somente diurético.

As doenças poderão ser alteradas através da transferência de genes. Será possível brevemente traçar-se com detalhes o perfil genético de cada um de nós ainda na vida intrauterina, permitindo um planejamento terapêutico com resultados muito mais eficientes.

A população brasileira já está recebendo os benefícios dos avanços da Medicina, mas infelizmente convive ainda com doenças comuns ao início do século, como as infecções e a diarréia.

Doença

Saúde é o resultado do equilíbrio entre o corpo e a mente e vem recebendo grande quantidade de informações nos últimos anos. O conceito de humanismo trouxe benefícios para a Medicina e hoje as palavras carinho e amor já fazem parte do receituário médico.

Melhores resultados serão obtidos quando a conceituação de doença estiver melhor definida. A Medicina procura ainda conceituar o que é doença e provavelmente daí surgirão bases para o seu melhor conhecimento e conseqüentemente o seu futuro desenvolvimento.

Doença seria uma falha de uma parte numa máquina extremamente sofisticada? Ou seria uma ocorrência em um processo de desenvolvimento absolutamente regular? Ou ainda se deveria a uma alteração durante um processo completamente caótico? Tais questões interessam profundamente aos cientistas e vão de conceitos filosóficos aristotélicos a conceitos neo-aristotélicos, passando por idéias elaboradas por Newton e Darwin.

Uma melhor conceituação de doença norteará a Medicina do futuro e permitirá conhecer-se melhor este processo que em ultima análise é a vida.

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