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Artigos de saúde

Associação entre a Terapia de Reposição Hormonal e o Aumento das Taxas de Colecistectomia e Apendicectomia

Os aspectos envolvendo o período do climatério (período após a última menstruação, denominada menopausa) têm recebido maior atenção durante as últimas décadas, devido ao grande aumento da expectativa média de vida feminina observado nesse século. A apresentação clínica do climatério é muito variada, incluindo desde a paciente assintomática, até aquelas com múltiplas queixas. A terapia de reposição hormonal (reposição de estrógenos e progestágenos- hormônios femininos, no climatério) está indicada nas seguintes situações: menopausa precoce, síndrome do climatério (sintomas indesejáveis sentidos pelas mulheres) e prevenção ou tratamento da osteoporose (doença caracterizada pela fragilidade dos ossos).

Vários estudos têm indicado que o estrógeno (hormônio feminino utilizado na terapia de reposição hormonal) pode causar processos inflamatórios e sintomas que simulam colecistite (doença inflamatória da vesícula biliar).

Um estudo publicado em maio do ano 2000, pelo Canadian Medical Association Journal, concluiu que existe um risco aumentado de colecistectomia (cirurgia para a retirada da vesícula biliar) e de apendicectomia (cirurgia para a retirada do apêndice), entre as mulheres que estão no climatério, e que começaram a fazer a terapia de reposição hormonal recentemente.

O estrógeno, um dos hormônios utilizados em mulheres após a menopausa, tem sido associado a várias síndromes dolorosas e inflamatórias. Associações entre terapia de reposição hormonal com o estrógeno e doenças como pancreatite, lupus eritematoso sistêmico (um tipo de doença do colágeno), asma, dor na articulação temporomandibular e dor abdominal têm sido relatadas em estudos recentes. Um desses estudos, o HERS (Heart and Estrogen-Progestin Replacement Study – estudo da relação coração e terapia de reposição hormonal), identificou um risco aumentado de colecistite entre as mulheres no climatério que fazem a reposição hormonal com estrógeno e progesterona. Em um estudo prospectivo acerca da terapia de reposição hormonal, as mulheres que fazem uso de hormônio têm um risco dobrado de sofrerem colecistectomia. O estrógeno é associado a diversos fatores que influenciam diretamente o aparecimento de inflamações. Esses fatores incluem, desde receptores celulares de inflamação sistêmica, à expressão de um gene. O uso do estrógeno pode causar colecistite acalculosa (doença inflamatória da vesícula biliar sem a presença de cálculos biliares), ou sintomas sugestivos de colecistite, mais freqüentemente do que a formação de cálculos biliares (pedras na vesícula). Este hormônio pode associar-se a um aumento do risco de procedimentos cirúrgicos, devido ao seu potencial em causar doenças inflamatórias.

A relação entre o início recente da terapia de reposição hormonal, com estrógeno e a realização de colecistectomia em mulheres no período pós-menopausa foi recentemente corroborada por pesquisadores canadenses. Permanece a controvérsia, entretanto, acerca da relação risco-benefício da terapia de reposição hormonal em mulheres que estão no período pós- menopausa.

O estudo

Os cientistas avaliaram bancos de dados relativos a procedimentos médicos, mantidos pelo governo de Ontário, no Canadá, de cerca de 800.000 mulheres, com idade acima de 65 anos, residentes naquela região, e compararam a incidência de colecistectomia e apendicectomia entre três diferentes grupos.

Um grupo de usuárias de estrógeno, há pouco tempo; o outro, de usuárias de levotiroxina (para reposição de hormônio tireoidiano, em mulheres com hipotireoidismo); e de usuárias de antagonista dos canais de cálcio (um tipo de medicamento para tratamento da hipertensão arterial).

O tratamento com estrógeno, após a menopausa, é complicado por diversas respostas do organismo (fisiopatológicas). Estas respostas podem contribuir para a ocorrência de dor ou inflamação, ou ambas. Os pesquisadores do HERS (Heart and Estrogen-Progestin Replacement Study – estudo da relação coração e terapia de reposição hormonal), observaram que a terapia de reposição hormonal pode estar inicialmente relacionada a um risco aumentado de doença cardiovascular (cardíaca e dos vasos sangüíneos), devido aos seus efeitos inflamatórios. Outro efeito causado inicialmente, prejudicial, foi relatado para a osteoartrite (doença das articulações) do quadril.

Neste trabalho, observou-se que, as mulheres que iniciaram recentemente a terapia de reposição hormonal, eram significativamente mais prováveis de serem submetidas à colecistectomia e à apendicectomia, quando comparadas àquelas que faziam uso de antagonista dos canais de cálcio. Nenhuma diferença significativa entre uma ou outra medida do resultado foi encontrada entre as usuárias de levotiroxina e as de antagonista dos canais de cálcio.

Resultados

Na análise estatística dos resultados, a relação entre o uso de estrógeno iniciado recentemente, como terapia de reposição hormonal, e a incidência de colecistectomia foi confirmada. A análise dos dados identificou ainda uma associação entre o uso do hormônio e apendicectomia primária em mulheres no climatério.

Os pesquisadores acreditam que os seus resultados são confiáveis, apesar das limitações envolvendo o estudo. Dentre essas limitações, estão envolvidas as técnicas de metodologia, o tempo de uso do hormônio (estrógeno) durante o estudo, a diferença de idade entre as mulheres estudadas e a incerteza dos pesquisadores quanto à influência de outras características clínicas associadas à colecistectomia e à apendicectomia. Nesse estudo, observou-se que as mulheres usuárias de estrógeno após a menopausa podem ser mais saudáveis do que aquelas estudadas em outros grupos de estudo, com menor contra-indicação a procedimentos cirúrgicos. Apesar da menor duração da observação das mulheres do grupo do estrógeno, devido, provavelmente ao abandono precoce da terapia de reposição hormonal, quando comparada aos outros dois grupos, foi encontrada uma relação significativa entre o uso do estrógeno e os resultados encontrados. Em relação à diferença de idade, o grupo do estrógeno era mais jovem do que os demais; porém, foram feitas análises que afirmaram os achados desse estudo. Embora fatores como a obesidade, tabagismo, dieta, uso de antibióticos e etilismo possam influenciar a necessidade de colecistectomia e de apendicectomia, nesse estudo não foi possível identificar nenhuma razão que explicasse a diferença entre os grupos avaliados.

A conclusão final dos pesquisadores é de que os dados encontrados referem-se ao uso relativamente recente da terapia de reposição hormonal, com estrógeno. Por isso, esta conclusão não deve ser generalizada a todas as mulheres que estão no período pós-menopausa, recebendo terapia de reposição hormonal em longo prazo.

Fonte: CMAJ 2000:162(10):1421-4

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