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Artigos de saúde

Infecção Urinária em Crianças: Como Diagnosticar Melhor?

A infecção do trato urinário (ITU) é considerada como a presença de bactérias multiplicando-se em locais normalmente estéreis (sem microorganismos) do trato urinário. É uma patologia relativamente freqüente entre as crianças, podendo se manifestar de formas variadas, ora com sintomas ricos e facilmente sugestivos – crianças acima de 5-6 anos – mas muitas vezes com poucos sintomas (oligossintomática) ou sintomas pouco específicos do trato urinário – crianças de 0 a 4-5 anos – o que dificulta o diagnóstico.

Cerca de 3% das crianças do sexo feminino e 1,5% das crianças do sexo masculino vão apresentar um episódio de ITU entre o primeiro e o décimo primeiro ano de vida. O fato de ser mais comum em meninas deve-se ao tamanho de sua uretra, que é significativamente menor que a dos meninos, o que facilita a ascendência de bactérias da região genital para o trato urinário utilizando como meio de propagação, o canal uretral.

A importância do diagnóstico precoce reside no fato de que a atuação bacteriana no trato urinário pode levar a lesões que a longo prazo vão possibilitar disfunções do sistema renal devido às alterações anatômicas geradas pelas cicatrizes e até devido a quadros de cronificação do processo infeccioso.

Ambas as situações podem ser responsáveis pelo aparecimento de insuficiência renal crônica em pessoas ainda jovens.

A melhor forma de se diagnosticar uma ITU é através do exame de urina, onde iremos encontrar um número excessivo de bactérias. Entretanto, devido à flora natural da genitália externa – bactérias residentes nessa área mas que não trazem problemas locais – e a uma coleta mal feita, muitas vezes, a urina é contaminada, atrapalhando a interpretação da amostra coletada o que por sua vez vem a dificultar o diagnóstico. Por isso, é importante que se consiga fazer uma coleta correta, minimizando assim, tais resultados.

Foi com este intuito que uma equipe inglesa liderada pela nefrologista pediátrica Lynster C. T. Liaw, organizou um estudo, cujo resumo foi publicado pelo British Medical Journal em maio de 2000, comparando diferentes formas de coletas urinárias. O fato de terem sido utilizados os próprios pais das crianças para coletarem o material foi importante devido à grande freqüência de vezes em que são justamente os mesmos, os responsáveis por tal ato.

Dessa forma, pôde-se perceber quais foram as maneiras consideradas mais fáceis pelos pais e que ao mesmo tempo obtiveram uma maior fidedignidade diagnóstica.

O estudo

Foram selecionados pais de crianças entre 1 a 18 meses, que se colocaram como voluntários para coletar a urina. Eles foram instruídos para lavarem as mãos e o períneo das crianças antes da coleta. Eles então fizeram a coleta através de três maneiras numa ordem aleatória durante um mesmo dia.

As técnicas foram:

a) tiras de tecido estéreis colocadas na fralda e checadas de 10 em 10 minutos até molhadas com urina (desde que não estivessem sujas de fezes) sendo então retiradas e através de uma seringa estéril, coletada a urina;

b) saquinhos estéreis colocados sob os genitais inspeccionados a cada 10 minutos sendo depois colocados num frasco;

c) frascos estéreis prontos para serem utilizados – vigiou-se as crianças até a micção – transferindo então, logo depois, a urina para os tubos de ensaio utilizados pelo laboratório.

Um total de 44 pais fizeram a coleta, sendo 29 crianças do sexo masculino com a média de idade de quatro meses. Teve-se o cuidado de não utilizar amostras de crianças com diarréia ou com ITU.

A contagem de bactérias foi <104/ml (geralmente, número relacionado com ausência de ITU) em 70% das tiras de tecido, 66% dos saquinhos e 75% dos frascos. Houve contaminação (>104/ml e mais de um microorganismo) em sete tiras de tecido, oito saquinhos e um frasco. Em nove amostras (8%) de cinco crianças houve crescimento >105/ml o que sugere ITU a qual foi excluída por amostras estéreis retiradas no mesmo dia e verificadas no hospital.

Os pais preferiram a utilização das tiras e dos saquinhos do que dos frascos, sendo os dois primeiros inclusive mais baratos. Entre os dois primeiros, as tiras foram consideradas mais confortáveis, pois os saquinhos permitiam vasamento principalmente à retirada, além de deixar marcas vermelhas na pele das crianças. A maioria considerou os frascos, uma maneira demorada e desgastante de coleta. A média de tempo despendido na coleta foi de 25 minutos com cada método, mas mesmo assim os pais consideraram a coleta com os frascos mais trabalhosa.

Conclusão

Os três métodos obtiveram a mesma eficiência em excluir um processo infeccioso, e a variação das taxas de contaminação contrabalanceou as falhas das coletas.

A utilização do padrão de corte para infecção – número de bactérias >105/ml – leva a um número pequeno de resultados falso positivos. Isso é de extrema importância visto o menor número de exposição de crianças sadias a tratamentos com drogas e outros exames complementares muitas vezes incômodos.

Além disso, a possibilidade de diagnóstico com o exame de urina diminui a necessidade de se fazer punções supra-púbicas diagnósticas – exame em que se punciona a bexiga com uma seringa através da pele acima do púbis – que não deixa de ser um exame um tanto quanto incômodo e ao mesmo tempo, inviável em termos de saúde pública.

Como em muitas das situações onde o exame de urina é necessário, a coleta da mesma se faz na própria residência da criança e pelos próprios responsáveis, a educação dos mesmos para a realização de tal procedimento é um grande passo para a diminuição dos casos de contaminação da coleta, o que vem impedir o diagnóstico. Tal erro diagnóstico pode perpetuar o ciclo de ITUs assintomáticas – a curto prazo – vindo a evoluir para insuficiência renal crônica em adultos jovens quando não nas próprias crianças – a longo prazo.

Não se tem notícia de artigos descritos anteriormente na literatura médica sobre estudos como esse, avaliando a opinião de pais sobre a coleta de urina de seus filhos. É sem dúvida uma forma de se melhorar o conhecimento da população sobre questões de saúde básica, o que por sua vez facilita programas de saúde pública melhorando a avaliação e conduta da equipe de saúde.

Fonte: BMJ 2000;320:1312-1313 (13 May)

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